quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Os afazeres, conquistas e prazeres da vida

A vida vai se moldando, e a corrida também se moldou.
Tudo aquilo que esperava ou ambicionava fazer este ano acabou por ficar numa lista de “afazeres” para outras alturas.
Dessa lista uma minoraria são impossíveis, os restantes são exequíveis a médio ou longo prazo, o que dá tempo para concluir.
Não sou de ver o copo vazio, gosto de ver as coisas de forma optimista, e com esta situação mundial, surgiram novos objectivos, diferentes formas de me desafiar sem que para isso tenha que ser no mais rápido tempo possível. E verdade seja dita, os treinos que faço também não servirão para muito mais que isso, desfrutar, sem grandes pressas nem abusar.



Mas o abuso termina logo que penso naquilo que esta pandemia me privou, e me proporcionou idealizar alguns projectos para se irem fazendo. Não há provas, é certo, mas há caminhos, trilhos, estradas que estão ao dispor todos os dias, e que com vontade, tempo e em alguns casos, companhia conseguem ser tão ou mais relevantes que provas.
Numa prova é certo e sabido que as coisas estão delineadas, e estamos “limitados” aquilo que será o trajecto idealizado pela organização.
Não ponho em descrédito qualquer organização, porque sem elas não conheceria muita coisa que conheço actualmente, e mal existam provas, provavelmente serei um de muitos que lá estará novamente atrás da linha de partida.
Mas porque não sermos nós próprios a idealizar um trajecto, e a desafiar a nós mesmos? Fugir um pouco à “rotina” a que nos acostumamos.


Vistas da Freita

Foi assim que foram surgindo ideias ao longo da quarentena. Não são para serem realizados todos num momento só, nem num curto espaço de tempo. Outros que já tinha idealizado bem antes disto tudo, mas que nunca foram avante, e agora podem se juntar a esta uma nova lista de “concretizações”. O que posso afirmar ter sido uma época produtiva, no que a ideias diz respeito, faltando apenas pô-las em prática.

Entretanto surgiu o desconfinamento, as provas continuavam sem surgir, e bem, mas as virtuais foram aparecendo, e aproveitei para me inscrever em algumas. Na qual destaco o “Desafio Vertical”, por ser algo que me enchia as medidas, tanto por ser algo que gosto, como pelo que me iria desafiar.

Do Detrelho da Malhada

Foi partir em busca de locais com subidas, e que facilmente se acumularia desnível positivo. Felizmente aqui na zona, não falta disso, Serra da Freita, foi logo o local escolhido para a primeira tentativa, com subida pelo segmento da Freita Vertical, escadas do martírio e Bradar aos Céus, só aí foi um “fartote”, algo como sensivelmente 25KM, e uns 1700 D+, ganhos na sua maioria em somente 2 subidas.
Após este dia, tive uma pequena lesão, nada de grave, parei uns dias, recuperei e assim evitei parar umas semanas.
Voltei aos trilhos, e seria um teste da recuperação, numa longa subida ali perto de casa, conhecida como Trialeira de Cabril, cerca de 2KM de extensão, e pouco mais de 300 metros de desnível. Estava impecável, e ainda deu no final de tarde, para uns 10 KM com pouco mais que 900 D+.

Estava tudo afinado para o maior desnível positivo ganho para daqui a 2 dias. O objectivo era dobrar os 1000 metros, e assim foi, no mesmo local foi um sobe e desce constante, era desgastante mentalmente, mas com companhia e alguma conversa à mistura, a coisa foi-se fazendo. Deu para sensivelmente 2200 D+, em 25 KM. Ali não há muita história, ou se está a subir ou a descer, só tem que se gerir a máquina para não rebentar. No final das contas, terminei o desafio com 8862 D+, juntando alguns outros treinos pelo meio.


O dia dos 2000 D+

Não havia objectivos de chegar a algum patamar, somente de ir fazendo conforme se podia, porque o tempo iria ser pouco, era uma questão de dias até inevitavelmente abrandar por completo. Parece confuso, mas não o é, pelo simples facto de a vida me proporcionar o melhor momento que vivi até hoje, é motivo suficiente para interromper aquele desafio. Algo tão pequeno, mas que consegue ser bem maior que todo o resto, alguém que num futuro me irá chamar de pai. Optar por ir trocar fraldas e choros no colo pode parece aborrecido e chato, mas vale a pena. É contraditório, mas é verdade.
Os treinos vão surgindo conforme se pode, em prol de algo maior, mas as “concretizações” ainda pairavam na cabeça, e algumas já começavam a ganhar forma.
O bom de ter uma equipa, um grupo de amigos que correm tudo para o mesmo dá em coisas que a olho nu, parecem invulgares e desconcertantes, mas visto bem à lupa, não é nada demais. Isto se excluirmos o calor do mês de Agosto, o ponto longínquo ao qual nos propusemos a alcançar, a falta de preparação, num percurso linear.


A montanha mais alta conquistada!

A conversa começou com um desafio lançado pela organização do UTMB, e acabou com uma proposta de chegar ao São Macário, um dos pontos altos da Serra da Arada, precisamente do lado exactamente oposto ao que iremos iniciar, tendo ainda que fazer a travessia na íntegra da Serra da Freita, o que equivale a transpor 2 das 3 serras pertencentes ao maciço da Gralheira.
Faltava uma coisa, que era o essencial, trilhos, caminhos, estradas o que fosse necessário para lá chegar.
Não entrei nesse campo, mas o Hugo tratou de fazer uma mistura deles, desde o que já havíamos feito tanto em treino como em provas, outros que procurou saber junto de quem conhece a zona, e lá foi somando quilómetros e desnível ao percurso.
No final tudo somado e calculado digitalmente ronda uns 52 KM, com 3.500 D+, agora no terreno a coisa pode ser diferente, e vai ser.

A ideia é simples, subir a Freita a partir de Vale de Cambra, andar no alto da serra, ainda que com sobe e desce ligeiros, e descer em direcção a Tebilhão. 
Menciono esta aldeia, já algo distante do local onde prevemos partir, por ter sido um dos pontos onde passei no UTSF, o que indica que até lá sei minimamente o caminho, e tenho alguma noção daquilo que tenho pela frente, por outro lado, sei que dali a uns quilómetros à frente até ao final a coisa será diferente, será o desconhecido para mim, e ao que tudo indica a parte mais complicada, pela tecnicidade do terreno naquela zona, ou assim ouvi dizer. Posso já ter passado em algum ou outro troço, mas como consigo contar por uma mão as vezes que para ali fui correr, não me recordo de nada.
Seja como for, as coisas estão delineadas e combinadas, faltando apenas afinar um pouco a logística da coisa, para termos algum apoio durante o caminho, de resto a ideia é desfrutar a fazer aquilo que tanto gostamos.

É engraçado e alegra-me ao mesmo tempo, que uma simples aventura cause tanto entusiasmo como uma prova que tanto queria fazer, se tratasse.

Tudo aponta para meados de Agosto, resta não haver nenhum contratempo que impeça ou adie a travessia das duas serras, pois estou ansioso pela aventura deste Verão. Resta contar os dias.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Bateu à nossa porta...

Bateu à nossa porta, é inevitável e temos que perceber e entender isto da melhor forma possível sem prejudicar tanto a nós mesmo, como outros.
Pensemos em todos como um só, e não só no nosso umbigo, sejamos altruístas hoje, e continuemos a sê-lo amanhã.
Entendamos que desta forma para além de nos protegermos, também contribuímos para o bem estar de outros.
Não esperemos por regras, sejamos impulsionados por todo este enredo e sejamos voluntários de um amanhã melhor.
Quando, e se as regras aparecerem, não as furem, vivemos em sociedade, e sejamos isso mesmo, uma sociedade.
Lutemos por ser um exemplo de quem soube lutar contra prognósticos, e contrariemos o que a estatística mais negativa nos possa dar.
Temos que ser conscientes que só o facto de “ao virar a esquina”, podemos dar de caras com sérios problemas, tanto para nós próprios como para quem nós tanto prezamos, sem sequer nos apercebermos.
Sejamos responsáveis com todos, para sermos connosco próprios.
“Estamos no mesmo barco, e não sabemos para onde vai”, é certo e sabido. Agarremos nos remos, e levemos isto a bom porto.

Protejam-se

terça-feira, 10 de março de 2020

Ultra Sicó 57KM - Um carrossel de emoções


- “Estou! Estás onde?”
- “Estou em Tapeus, no abastecimento à tua espera e tu?”
- “Ainda estou com 22 KM, a chegar ao abastecimento do quilómetro 25, e se calhar fico por aqui, não estou em condições, vai ser para sofrer o resto da prova.”




Sicó, a prova que me chamou atenção, e me deu a conhecer o trail, ainda era eu um rebento no mundo da corrida. Em 2017, foi a primeira vez que percorri aqueles trilhos, e fiquei fã, de forma a ter repetido em 2018.
Dois anos depois, regresso, mas desta vez para uma distância mais demolidora, mas que me fez sentir como algum tempo não sentia. Aquele nervoso miudinho, aquela noite mal dormida e inquieta a antever o que ia fazer, ou como o iria fazer. Tudo isto devido ao facto de me ter preparado para tal, foram poucos meses, mas com foco somente neste dia, queria ter treinado mais, mas dentro daquilo que me foi possível, foi o que consegui, e sabia que tinha hipóteses de a concluir, e só isso já me fez ambicionar mais que o que até ali havia feito.


Créditos na foto

Foi uma noite inquieta que me fez acordar sobressaltado logo pela fresquinha, manhã gélida, e com vontade de querer estar um pouco mais no quente da cama, mas tinha que ser. Já foram várias as vezes que fui correr com menos horas de sono, não ia ser agora que isto me ia travar.
Chegado a Condeixa e com alguma pressa, fui encontrar o autocarro que nos levava directamente para Santiago da Guarda, local de início da distância dos 57 KM, e cruzamento de percurso para quem vai na distância maior (111 KM).
Foi o recordar de um ponto que mais critiquei no Vouga Trail, com o tempo de espera que tivemos que suportar até à hora de partida, com cerca de 1.30h em pé. Valendo somente o facto de podermos estar abrigados da chuva e do frio, num complexo monumental local.

A ansiedade foi acalmando, e a preguiça apoderando, estava com algumas reticências se o iria conseguir, já que antes tinha tantas certezas que era possível, foi assim que me arrastei para fora do edifício, e comecei a tentar ambientar-me ao clima fresco e chuva que se previa pelo menos para a fase inicial da prova. Eram 09.30h, e o gelo foi rompido, estávamos finalmente no terreno, rumo ao que para mim em grande parte era desconhecido, tirando algumas secções por conhecer das edições anteriores.
Foram algumas centenas de metros até entrar em trilho finalmente, que não tardou em interromper a velocidade de inúmeros que ali se aventuraram a apressar na fase inicial.
A pedra solta, e riachos de água devido à chuva que já havia terminado, foi o suficiente para atrasar uns quantos, e deu para pelo menos dispersar-me da grande maioria.
Tentei acompanhar o Fábio naquela fase inicial, mas a confusão era tanta que acabei por o perder logo ali, e não conseguindo mais alcançar, pensei para comigo mesmo, se é para tentar fazer isto mais sério e já que estás capaz de o fazer, sozinho terá outro sabor.


Pouco antes de partir. A habituar ao frio. Foto de ‎"Christine François Wilman"

A comunhão do percurso com os 111 KM foi de alguma forma engraçada, ver toda aquela gente que enfrentava já umas longas horas e muitos quilómetros nas pernas, sem eu nunca deixar de dar uma palavra a cada um que passava.
Estranhava os já mais que conhecidos estradões do Sicó ainda não terem aparecido, e após 5/6 quilómetros lá surgiram, ainda que um pouco tímidos, devido à grande afluência de água.
O caminho tornava-se perigoso, fazendo os caminhos um pouco mais artístico, não fosse a grande possibilidade de dar várias piruetas seguidas em tão poucos metros. A lama já mais que pisada fazia com que deslizasse a cada passada, tendo perdido a conta de vezes que não me passou pela cabeça que seria ali que ia dar uma grande queda. Felizmente o susto maior que tive, foi numa pequena descida em que ia caindo para trás, e provavelmente desceria o resto sentado. Felizmente, não passou de um susto.

O tempo já havia melhorado bastante, não se sentia tanto frio, a chuva desapareceu, foi tréguas do S. Pedro para connosco, e deu para desfrutar mais do percurso. A primeira grande subida apareceu já aos 8/9 KM, até atingir o ponto mais alto da prova. Deu para suar, não que fosse muito agreste, mas deu para puxar bem pelas pernas, dado a grande amplitude de movimentos trepando algumas rochas. A descida apareceu algo que tímida, sem grande inclinação, mas um pouco abundante em lama, e não seria de esperar outra coisa. Procurei sempre as correr pela lateral do trilho, onde existia vegetação e não era tão perigoso, havendo algum atrito e menor risco de cair.


A chegar ao topo do Monte de Sicó. Créditos na foto

Foi descer, e bastante, num trilho em que nem era preciso procurar as marcações para o fazer na totalidade. Sempre com pedra à mistura, mas com mais segurança do que havia sido feito até ali, descendo a colina do Monte do Sicó, e chegar a “Pousadas Vedras”, para o primeiro abastecimento. Foi o torço mais longo, entre abastecimentos, e com já 16 KM, fazendo ali uma rápida análise, sentia-me perfeitamente bem, não tinha dores, nada de cansaço, sentia perfeitas condições para correr, estava maravilhado. Afinal o treino que fiz estava a dar resultados.
Procurei não perder muito tempo ali, apenas alguns minutos, não queria desleixar tanto na alimentação como hidratação, e fiz-me ao caminho.
A saída fez-se estrada fora em busca do próximo trilho, com ligeiras subidas, em que tentei voltar a atingir os ritmos que vim até ali.

Foram uns poucos metros para abrandar e caminhar. – “Acabei de comer, parei e estou a arrancar, o corpo manifesta-se e não quer andar. Aguardemos um pouco” – Pensei naquele momento, enquanto tentava recuperar forças para voltar a correr.
Não demorou muito, mas foi algo forçado, e lá consigo voltar a correr, ainda que com folego algo descontrolado, e um cansaço a querer manifestar-se. - “Noite mal dormida? Será que vai complicar-me as coisas?” – Uma série de questões, começavam a surgir na cabeça, e ao mesmo tempo desanimava. Afinal tinha treinado para aquilo, queria fazer uma prova tranquila, com ritmo mais forte, e sem grande cansaço acumulado.

Valeu mesmo os trilhos, os single-tracks que iam surgindo e que tanto adoro daquela zona, num constante mudança atípica de cenários. A entrada no trilho de Poios foi fantástica, coberto pela vegetação, e num caminho a rasgar o piso até ao fundo de um vale.
Lembrava daquele local já visto por outras crónicas que fui lendo de quem ali já passou, e estava muito curioso com aquilo.
Infelizmente não consegui usufruir como queria, foi como uma espécie de cansaço me tivesse apoderado. Senti-me fraco e com sérios problemas para avançar, já sendo um esforço dar o próximo passo. Pego numa barra e empurro goela abaixo em conjunto com água para evitar problemas maiores. Estava cariz baixo, até há pouco tempo, estava a sentir-me em perfeitas condições, a num ápice as coisas mudaram radicalmente e com tão poucos quilómetros. Fui de ideal a besta num instante, morri completamente.


O fantástico Vale dos Poios, onde não consegui desfrutar.
Foto retirada do site www.greentrekker.pt

Era um zigue zague encosta acima num monte rochoso que se tornou um tormento, começo a sentir-me cada vez mais fraco, e com poucas condições para fazer a prova em completo. Foi por volta dos 21 / 22 quilómetros que tomo a decisão – “Aos 25 KM, se não me sentir bem, por ali fico. Não quero sofrer até ao final.”. Já num trilho que virava o monte, pego no telemóvel, e ligo para a minha namorada que estaria num dos abastecimentos há minha espera, provavelmente em Tapeus, quilómetro 33.

- “Estou! Estás onde?”
- “Estou em Tapeus, no abastecimento à tua espera e tu?”
- “Ainda estou com 22 KM, a chegar ao abastecimento do quilómetro 25, e se calhar fico por aqui, não estou em condições, vai ser para sofrer o resto da prova.”
- “Mas estás bem? Não desistas, tu consegues”
- “Não sinto totalmente bem, estou fraco e sem grande força para continuar, e não quero ir em sofrimento até ao final. Vou ver como me sinto no abastecimento.”
- “Vai. Tu consegues, não desistas. És capaz.”

Estava a arrastar-me, e estava a ser ultrapassado constantemente. O sol espreitava por diversas vezes, e abafava o clima naquela encosta, e faltavam uns míseros 2 KM para o abastecimento, até conseguir colocar um género de trote.
A minha cara, naquele momento, devia ser algo semelhante a de alguém que estivesse a desfalecer, tal era o desalento e o esforço que fazia para dar um próximo passo.
Estava no abastecimento, que em circunstâncias normais, já teria saído dali para foram, mas foi onde procurei repousar e hidratar bem, isto deveria ser uma desidratação, e com a reposição de líquidos e comida, isto vai lá.
Enquanto ali estou, vou vendo muitos chegar e partir rapidamente, inclusive a Márcia, que me veio perguntar se estava bem, tendo explicado a situação, e afirmando o que já pensava, que pelos sintomas só poderia ser desidratação.

Após verificar que estava bem, arrancou, visto estar bem posicionada, e iria tentar o melhor que conseguisse dali para a frente.
Ainda aguardei mais uns minutos, e após bastante líquidos, e comida, decido retomar, caso me sentisse mal, dou por encerrado e volto para trás. Pego numa água das pedras de limão, que já me ajudou noutras provas, e bebo, enquanto recordo aquela conversa telefónica, que me moralizou e me deu confiança para não desistir, e chegar à meta. Foram poucas as palavras, mas foram as suficientes e as mais assertivas naquele momento
Aos poucos começo a sentir frio, e opto por vestir o impermeável que trazia na mochila. Não queria prejudicar o desgaste do corpo, com o frio do exterior.
Estava decidido, sigo caminho, e vamos ver o que acontece…

Saio de Poios, e mal coloco o pé fora do abastecimento, sinto uma corrente de ar fresco que me deixa gelado. Tento sair dali rapidamente, e ainda em modo de caminhante prossigo até começar a sentir o suficientemente bem para voltar a correr. Batia o dente de tanto frio que sentia, foi ali que vi o quão fragilizado estava, e uns 100 metros depois, tento um trote, e a coisa funcionou.
O corpo respondeu positivamente, e sem queixas, e com o psicológico a dizer para não exagerar, deixar as coisas andar, e daqui a pouco vemos o que se sucede.
Os quilómetros foram passado, e não senti quebras, bem pelo contrário, melhorava com o passar do tempo e isso ajudou a equilibrar-me mentalmente novamente.
Ia voltando a recuperar lugares atrás de lugares, ainda sem exageros, com ritmos ainda que contidos.


Daqueles abastecimentos fartos em tudo. Foto de ‎"Christine François Wilman"


Olho para o relógio e vejo que estou a chegar aos 33 KM, onde estava o meu apoio e local onde pretendia parar para comer algo mais consistente. Aperto mais o ritmo, e tudo indicava que sim, que o mau momento ficara para trás, e estava rejuvenescido. Foi como se tivesse caído a um poço sem saída, e alguém me tivesse arrancado dali.
Mesmo a chegar ao abastecimento, apanho a Márcia de novo, e apanho a minha namorada e os meus pais. Agradeço as palavras, e indico que já estou bem.
Entro de rompante no abastecimento e bebo água e mais água. Uma canja que me confortou o estômago, e me soube pela vida, enquanto falo com a família a explicar o que se tinha sucedido. Agora estava diferente, estava energético, e queria arrancar o mais rápido possível. Despeço deles, e combinamos ver em Casmilo, e arranco com a Márcia.

Prometia ser a etapa mais dura de todo o percurso, ganhando 600 D+ em mais ou menos 10 KM, numa longa subida assim que saímos do abastecimento.
A subida era realmente longa, mas acessível, não sendo muito inclinada, nem técnica, sendo os últimos 300 metros talvez o que complicasse mais todo aquele segmento. Acabo por deixar a Márcia para trás, e sigo sozinho.
Assim que consegui atingir o topo, não perdi muito tempo, e consegui rapidamente impor ritmo de corrida, e seguir os longos estradões que ligam as ventoinhas eólicas. O extenso estradão foi uma manobra de nos desconcentrar, e após uma ligeira descida, obriga-nos a finalizar numa longa subida. Viramos o monte, e voltávamos a descer, estava finalmente a fazer o que queria desde o tiro de partida, mas que infelizmente havia sido interrompido entre os 16 e 25 KM.
Isso já estava para trás das costas, seria eu contra o tempo agora, e tentar recuperar o quer que fosse possível.

Descer em direcção às Buracas de Casmilo. Foto de ‎"Christine François Wilman"

A descer estava a conseguir impor ritmos altos sem abusos, tanto é que um dos comentários de um grupo que passei, já com cerca de 40 quilómetros nas pernas, era que estava a participar na prova dos 25, tal era a velocidade e a frescura com que estava.
Eu sabia que tinha treinado para aquilo, eu sabia que conseguia, só demorou um pouco a coisa realmente aparecer.
A descer o estradão, vou avistando as buracas, as famosas buracas, e terreno conhecido para mim, só que desta vez em sentido contrário.
O trilho das buracas, é dos meus preferidos. Adoro aquele single-track que vai tricotando as árvores que nos escondem do sol, É um zigue-zague constante, mas divertido, tendo apenas que estar atento às imensas raízes e pedras para não dar uma queda aparatosa. Para sair dali, só em subida, com uso dos 4 membros em algumas circunstâncias. E só depois então num caminho todo em pedra, até chegar a Casmilo.


A chegar a Casmilo. Créditos na foto

Era o penúltimo abastecimento, e continuava cheio de energia. Reencontrava a família, e ficaram admirados de já ali estar, sendo a fase mais complicada de todo o percurso.
Eu estava realmente cheio de energia, e mesmo assim não deixei de me precaver no abastecimento. Despedi-me deles, e agora só nos voltaríamos a ver no final, em Condeixa. Só algo mal antecipado é que me impediria de terminar a prova.
Tenho um estômago que às vezes parece uma princesa, e quando saí do abastecimento vi que não poderia desatar a correr, estava com a barriga pesada, e se o fizesse iria correr mal.
Ainda andei uns valentes metros em modo de caminheiro, estradão fora, até começar a descer, só então puder voltar a correr, e fui-me sentindo melhor. Chegava a Serra de Janeanes, e não segui pelo habitual caminho que fizera nos 25 KM e nos levava até ao Poço por um longo estradão que detestava.
Desta vez, atravessamos a aldeia, e sigo por um novo caminho, pelo menos para mim, que entre campos, a coisa se tornou mais agradável, tendo apenas sido interrompido, por mais uma “escalada”, curta mais trituradora. Saí dali rapidamente, e volto a meter-me a caminho até ao último abastecimento no Poço.

Faltavam uns 5 quilómetros até ao final, e não demorei muito, enquanto o pessoal da organização pediam para irmos agora com atenção, por ser um trilho perigoso.
De facto é, escorregadio, e acidentado, mas lindo q.b., sendo o meu preferido de toda a prova.
Vou relembrando o caminho ao mesmo tempo que o transponho, num sobe e desce ligeiro, parecendo estar num carrossel. Até então ali chegar, a uma entrada “desenhada” no meio da vegetação, e nos levando para um mundo diferente.
Após imensos quilómetros expostos ao céu aberto, foi como se entrássemos num bosque selvagem, num trilho paralelo ao leito do rio seco. Mas nem por isso o piso era menos escorregadio, e cada passo era um perigo para toda a estrutura óssea de quem preze por ela.
Não temos muitas oportunidades para correr, mas também sem tempo para descanso. Nos momentos que não corremos, temos que estar atentos onde colocamos os pés, seja a subir, seja a descer, quando corremos, qual é o melhor caminho a seguir, sem que se coloque o pé em falso, ou enfiemos a cabeça em algum tronco de árvore que se metem pelo caminho. Adoro aquele trilho, mas desta vez queria sair dali o mais rápido possível, sem quedas.
A subida por uma escadaria improvisada colina acima significava o final da tortura que aquele segmento nos dá.
Assim que vejo que chego ao cimo, e entro no estradão, estava feito. Ainda que faltasse cerca de 2 KM até ao final, dificilmente não terminava a prova.

Mais uma das famosas buracas. Foto de "‎Christine François Wilman"

Cerro os dentes, endireito-me com o caminho, e desato a correr. Faltava muito pouco para finalizar. Passava pela ruínas de Conimbriga, Condeixa-a-Velha, e chegava a Condeixa.
O meu pai aguardava-me junto ao início da última subida que nos levava até ao centro, e acompanhou-me naqueles últimos metros até à meta. Agradeço aqueles últimos metros, e vou em direcção à meta, passo pela minha mãe e namorada, e também dou um “high five”.
Cerro o punho, e festejo. Citando as palavras do speaker Hugo Água “Olhem para a felicidade na cara deste atleta”.

Foram 57 KM, feitos com as pernas e com o coração. Como disse de início, foi provavelmente a prova que mais me dediquei no que treinos diz respeito, sabia que era capaz de fazer a distância, e que poderia fazer uma boa prestação. Infelizmente o meu corpo numa zona prematura deitou-me abaixo, fisicamente e psicologicamente. Valeu o apoio de fora da minha família, e as palavras da quem acreditava em mim, que era capaz de concluir. Só aí consegui traduzir o meu treino na prova. Daí dois dias depois, estar sem dores de pernas, nem desgaste físico.

Sicó, foi o trail que me chamou para os trilhos, e onde adoro correr por todo o envolvente que esta prova nos dá.
Grande apoio durante todo o percurso, abastecimentos fartos, marcações excelentes, trilhos fantásticos, enfim uma panóplia de argumentos que caracterizam este trail como um dos mais ricos a nível nacional, não fosse a quantidade de atletas que todos os anos alinham no tiro de partida, seja na distância que for.
Tem os seus defeitos? Tem. Mas tem muita qualidade.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Vouga Trail – Já chegamos? Não. E agora, já chegamos? …


Já não é a primeira vez que dou uma segunda oportunidade a uma prova, e que acabam por me surpreender, fiz isso com o Ultra TrailMedieval, e fi-lo novamente com o Vouga Trail.
Esta, sem dúvida alguma, na sua primeira edição, deixou-me a desejar, percurso sem interesse, e o S. Pedro que não contribuiu para melhorar a coisa na altura.
A organização prometeu uma remodelação na integra da 2º edição, se seria para melhor é que era uma dúvida, fechei os olhos e atirei-me de cabeça, vamos lá ver no que isto dá.


Créditos na foto

A gélida manhã, não afastou muitos. Eram imensos, uma multidão, que se encontrava em Senhorinha, localidade de Sever do Vouga para enfrentar os 27KM com 1200 D+ anunciados.
Este, para mim foi um erro da organização, sendo uma prova linear, e disponibilizando autocarros para nos levar até ao local de partida, tivemos que aguardar quase hora e meia para a hora de partir. O que nos valeu, foi termos um pequeno café/restaurante, onde podemos nos concentrar e aguardar, mais quentes que ao ar livre.
Demorou, mas lá chegou a hora de partir, e foi debaixo da ainda fresca manhã que e num ambiente bem animado que se deu os primeiros passos de corrida.
O longo segmento em asfalto inicial, serviu também ele para aquecer um pouco, além de dispersar um pouco o pessoal. Os primeiros trilhos eram feito num caminho mais alargado, o que permitia rolar cada um à sua vontade, o que fazia parecer uma prova de downhill a quem estivesse a apreciar. Descíamos gradualmente sem grandes declives, até à primeira mais acentuada, foi ali que realmente a coisa ficou dispersa.


Final da descida. Créditos Objectiva em Movimento

Senti que as pernas estavam a responder, e dei os primeiros apertos a correr, sem grandes exageros.
A primeira subida, era o que havíamos feito no ano anterior a descer. É inclinada, mas dá para manter um ritmo de caminhada mais forte, intercalando um pequeno trote em partes menos agressivas aos gémeos. Recordo que seguia num grupo de 3 ou 4 elementos, e seguíamos sempre a ultrapassar imensa gente que ali já abrandava.
Mais de metade da subida feita, apenas uma ligeira descida para acalmar os ânimos e retomávamos até atingir o cume daquele monte.
Recordava o frio que passei ali na primeira edição, e que se seguia, uma inclinação brutal, mas desta vez feita a descer. Ainda que algo receoso, e meio que a travar, fiz mais de rompante que o habitual.
Surgia finalmente os primeiros trilhos mais vistosos e mais rolantes, single tracks, escadas, mais ou menos técnicos, um fartote.

O maior destaque, vai para os longos estradões que pouco de interessante trazia à prova, e que em segredo nos ia elevando a altitude. Nada que se fizesse notar, dado a ligeira inclinação, uma ou outra mais acentuada, mas curta o suficiente para passar despercebida. Os trilhos agora começavam a moldar-se, e estava embrenhado num louco single track, que percorria uma encosta, que ao mínimo deslize iríamos parar ao rio.
Encaminhava-nos até ao parque da Cabreia, com uma cascata fantástica, o caudal estava cheio devido às recentes chuvas, e o cenário apenas pedia para ser desfrutado, não ficando ninguém indiferente.
O frio já havia ficado para trás algum tempo, e o sol ainda que fraco já se colocava a aquecer-nos o pouco que fosse. As ligeiras subidas, já não eram assim tão ligeiras, gradualmente ficavam mais íngremes, e começava a moldar o ritmo da maioria de quem ali seguia.


A chegar ao topo da primeira subida. Créditos na foto

Silva Escura, pequena aldeia de Sever do Vouga, onde cruzamos maior parte do caminho pelo asfalto, e curiosamente sempre a descer. Uma maneira simpática de nos levar as profundezas, e relembrar que até à serra do Arestal é sempre a subir.
Ali na aldeia, recuperei a caixa, e estava entusiasmado por estar com pernas e com a sensação de ainda poder dar mais, as coisas estavam a correr bem. Pelo menos até ali…
A subida já havia começado algum tempo, mas nada de muito agressivo, com algumas abébias pelo meio, o que até facilitava a coisa, mas ali não havia margem para dúvidas, não precisava de indicações, nem de ninguém que me indicasse que a real subida iria dar inicio. Recordava o gráfico publicado pela organização, e era por esta altura que as coisas iriam tornar-se mais sérias.
Ainda que com um começo algo tímido, paralelo a um riacho, e só depois mesmo pelo meio do mesmo, sentia-se que as coisas iriam começar a complicar. E não demorou muito, até entrarmos em trepa paredes, onde os pequenos montes apenas eram transpostos pelo piso já calcado de quem ali havia passado.

Não se corria, nem se esforçava, enquanto formávamos uma fila onde marcava o ritmo, e os restantes me seguiam. Aos poucos fomos alcançando quem até ali nos precedia, e os últimos da prova de 47KM. Pé ante pé lá fomos avançando sem grande história nem palavras, apenas ouvindo a respiração, e o pousar das sapatilhas em pequenos ramos já ali tombados.
Era longa, e acentuada, sem que por breves momentos desse sequer a possibilidade de ver o topo. Era oculto pela alta vegetação, e pelas travessias que nos levava a mais uma subida. Ali comecei a sentir algum desgaste, mas também contente por não ter caibras dado já o longo tempo que levava a fazer o mesmo movimento.
A travessia da estrada nacional, indicava a chegada a Portas Vermelhas, e realmente era uma cor de alarme, as coisas não suavizavam e o fim continuava sem se avistar. Estava desgastado fisicamente, e psicologicamente estava a ser uma tortura por não saber o que faltava.

Faltavam poucos metros para um terreno mais rochoso, e onde conseguia ver alguns a correr após o transpor.
Seria ali o fim do tormento? Sim e não…
Realmente as coisas modificaram, já não havia paredes, nem nada de muito técnico que obrigasse a maior atenção ou agilidade, porém os músculos estavam amassados devido à longa subida.
Queria um abastecimento, que estava previsto ao quilómetro 16,5, mas que o meu relógio contrariava, visto já acusar pouco mais de 16 e não ter sinais de vista.
Ia trincando uma barra enquanto caminhava um pouco para recuperar, as pernas que até ali se tinham portado lindamente, estavam agora desfeitas.
Conhecia a zona do Arestal onde iríamos passar, mas naquele momento não me estava a conseguir situar, até finalmente entrar num estradão que nos levava por entre duas das poucas casas que ali existe.


Créditos na foto

Assim que reconheço o local, vejo algumas pessoas ao fundo que davam apoio e nos levavam até ao abastecimento que apenas surgiu quase aos 18 KM. Sentia-me vitorioso, e a partir dali era sempre a descer, bastava ter pernas, que naquele momento não me pareciam capazes para tal coisa.
Dirigi-me ao abastecimento, e usando o que ali havia, tentava recuperar energias para enfrentar os restantes quilómetros até à meta.
Assim que retomo o percurso, inicio uma ligeira corrida, mas noto que as pernas ainda estão perras e insistem que não querem correr. Ao mesmo tempo, sinto um ligeiro desconforto no estômago, e fico cariz baixo. Agora que queria aproveitar para conseguir rolar devidamente, não estou capaz de o fazer. A altitude, e o local mais sombrio, trazem novamente o frio, que me congelam as mãos, de tal maneira que me obriga a embrulhar na gola que trazia no pulso.
Só uns metros mais à frente consegui com que recuperasse a temperatura, e as pernas também ficavam mais soltas, ainda que travem ligeiramente.

A descida não tem grande história, grande parte feita em estradões, corta fogos, por vezes lá se fazia um ou outro trilho que fazia abrir o olho, mas nada de sonante.
Aos poucos as pernas vão permitindo abusar mais, volto a conseguir impor o ritmo que desejava desde inicio e deixo de pensar em mazelas ou dores de pernas, só queria aproveitar os últimos quilómetros de uma descida que noutras circunstâncias teria sido melhor aproveitada. Com cerca de 21 KM já intercalávamos o caminho com a prova mais curta até à linha da meta.
Entro em Sever do Vouga, e não há mais trilhos, somente asfalto até ao parque de Lazer local, onde estava a meta.


Equipa Vale Correr

Foi uma modificação em pleno, a alteração de percurso, foi a mais sensata e mais acertada, ainda que ache exagerado a passagem por estradões, está algo mais bem desenhado e de forma a triturar cada um que se atreveu a participar.
Tudo se resumiu a uma subida, onde obtivemos mais de metade do acumulado, ainda que bastante oculta de inicio, mas já com vista a nos receber, torturar e atirar-nos sem pernas para uma descida que por ela só pede para correr.
São Pedro ajudou, e contribuiu para o sucesso desta edição, com uma organização bem ciente do que era necessário para o conseguir.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

São Silvestre do Porto - Uma imensidão


Gosto sempre daquele sabor das corridas de fim de ano. As São Silvestre, aquela designação que é usada em imensas provas por todo o país, e que pretendo todos os anos fazer uma diferente, apesar de não ter sido o caso, acabando por voltar à primeira em que participei já em 2016.
Tinha todas as condições para fazer em tudo, melhor prestação que há 3 anos atrás, não fosse a inexperiência da altura, e o recente empenho mais sério nos treinos.
Estava sem objectivo, sem foco, apenas divertir-me e tentar deixar algo de mim ali, pelo menos era esse o pensamento antes do tiro de partida, que acabou por desvanecer ainda uns 45 minutos antes da hora de arranque.
É uma imensidão, um aglomerado enorme de pessoas que se juntam aos já imensos turistas que percorrem as ruas do Porto, e o facto de estar mais atrás, ou mais à frente nesta prova é o suficiente para perder ou ganhares tempo ao quando estás na estrada.


Avenida dos Aliados. Foto da organização

Faltavam pouco menos de 1 hora quando abriram os pórticos de partida, e tentando colocar-me o mais na frente possível, obrigou-me a não ter aquecimento, e uma longa espera no meio de uma confusão de atletas que ali aguardavam como eu.
Uma vez ali dentro, com tempo de sobra, foi o primeiro indicio de que aquele palavreado de passear iria ser para esquecer, e a prova iria para ser feita com a faca nos dentes.
Faltava 2 a 3 minutos para a partida, e sentia um arrepio, estava um ambiente incrível, com tanta gente a correr, como a ver, fazendo um corredor enorme pelas ruas do Porto.
O que já não achei incrível, foi a forma como se sucedeu os primeiros quilómetros, o que já estava à espera dado a grande enchente, e o arranque em frio.

Tentei ali dispersar-me com mais rapidez que o normal, mas era impossível, parecia que estava numa prova de trail, com saltos e desvios repentinos, como se houvessem raízes ou pedras que atrapalhassem, apenas para tentar ultrapassar só mais alguém no meio de tantos.
Foram 3 quilómetros disto, onde tentava sair de uma zona carregada de pessoas, tentando aquecer, entre subidas e descidas.
Só ao 4º quilómetro é que consegui estabilizar num ritmo já próximo do normal, mas mesmo assim não dentro do que pretendia, as grandes e complicadas subidas já haviam ficado para trás, agora era tudo acerca de longas rectas, onde já sabia que teria hipóteses de recuperar algum tempo.
As ruas continuavam incríveis, havia sempre alguém, nunca nos sentíamos sozinhos, ou abandonados, e davam animo para não abrandar.


Foto da organização

A passagem pelo abastecimento, ditava o meio da partida, e para mim o tentar meter um ritmo mais forte, e fazer uma segunda parte mais rápida.
Pouco apreciava ou via em que ruas andava, apenas estava focado em manter um ritmo certo, e tentar com que a faca não saísse da boca. Se na primeira metade, foram essencialmente subidas, aqui eram essencialmente descidas e planos, e era nas descidas que tentava abusar, ainda que contido, e nos planos que tentava manter a velocidade. Assim que vejo o placar do 8º quilómetro, sabia que estava feito, agora seria uma questão de qual o tempo final, mas teria que ser abaixo dos 40 minutos, desse por onde desse.

Chegava ao túnel dos Almadas e restava pouco menos de 1 KM para o final, a descida fila mais abruptamente, e lá em baixo tentava manter um ritmo constante de forma a recuperar um pouco a caixa, para a subida que nos fazia sair dali.
Doeu, mas saí do túnel, faltava descer até aos Aliados, contornar e subir até à meta.
Este era o momento mais alto da prova, onde se preenchia um autentico corredor humano com uma presença incrível de apoiantes até à meta.
Essa, só vi assim que contornei os Aliados, e comecei a subir, mesmo no cimo da Avenida, com o relógio a contar 39 minutos e alguns segundos. Não percebi os segundos à primeira, e foi então que decidi dar tudo o que restava naquela subida e chegar antes dos 40 minutos oficiais, que o liquido já sabia que ia ser abaixo.


Saída do túnel. Foto da organização

É sem dúvida das provas mais incríveis que fiz, tanto pela moldura humana que tem, como por toda a envolvência de atletas e apoiantes, fazendo provavelmente a prova mais ou das mais repletas a nível nacional. O único senão, é o facto de ter imensa gente, que congestiona mesmo em vias com várias faixas.
Foram os últimos cartuchos de 2019, aguardemos por 2020.


Foto da organização

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Mamoa River Trail - Sabor agridoce


Quase de faca nos dentes, não literalmente, nem tão de perto o que se entende quando se cita uma expressão como esta. Basicamente queria deixar tudo de mim ali, dar o que conseguia, mesmo sabendo que apesar de ter capacidades para terminar, não tinha a velocidade que realmente queria. É a estreia de uma prova que percorre caminhos semelhantes ao Trail Medieval, mas que continha 1200 D+ em 25 KM. Tendo em conta que não é uma zona com serras de grande elevação, só conseguia imaginar um trajecto em forma de carrossel, com subidas e descidas repentinas, curtas e inclinadas.

A manhã era fresca, aliado ao facto de estarmos junto ao rio, o calor era completamente inexistente, e apenas uma breve corrida me fez ganhar algum calor para não arrancar frio, e abafar em pouco tempo.
Aproximava-se a hora, e uns 80 a 90 atletas colocavam-se atrás do pórtico aguardando o tiro de partida, para de seguida dar uma pequena volta pela praia fluvial de Mâmoa.
Não percebi bem o que queriam com aquela volta ali, provavelmente um pequeno aquecimento para o pessoal todo, uma forma de dispersar a malta, não sei…
Mas acredito que tenha sido esta última, por entrarmos logo num trilho um pouco mais apertado.
Trilho maiormente em terra e pedra cravada à superfície, fácil de correr e de rápida progressão, atravessa rio aqui e ali sob pedras e vou progredindo sem problemas.


Méééé - Créditos na foto

Os trilhos iam-se moldando, mas na sua grande maioria feitos por single tracks, o que adoro, diga-se de passagem, mas que dificultam por vezes a progressão por serem irregulares, ou alguém ir mais lento e não haver chance para passagens sem por em perigo alguém.
No entanto não era o meu caso, ia bem disperso, e chegado à primeira subida ia na frente de um pequeno grupo de 3 atletas, sendo perseguidos uns metros atrás por um outro de 4 ou 5 elementos.
Foram aproximadamente 200 D+ em pouco mais que 2 KM, existindo por vezes 30% de inclinação, que obrigava a uma maior amplitude de movimentos.
Uma vez no cimo, a descida não tardava, e estava a comprovar-se a minha teoria, subidas e descidas rápidas e curtas.

Descida até ao primeiro abastecimento, com pouco mais de 5 KM, achei demasiado cedo, e apenas agarrei num pedaço ou outro de comida e arranquei.
Voltei a tentar recuperar o lugar onde até ali vim, e voltava à subida, desta vez não tanto agressiva, ligeiramente mais rolante pelo largo estradão.
Até ali estava tudo a correr na perfeição, apertava bem na subida, e quando não conseguia colocava uma caminhada mais forte, e descidas eram feitas mais rápidas que o normal.
Felizmente e apesar do temporal dos últimos dias, o terreno não esteve escorregadio como pensava, mas ia com alguma cautela. A única coisa que me estava a falhar, eram as marcações, não que estivesse mal fitado, mas por não haver reforço de fitas em cruzamentos, ou desvios do caminho, tendo enganado por diversas vezes, ainda que em poucos metros, mas que obrigava a parar e procurar.


Vale Correr

Nesta altura já havíamos deixado para trás um dos elementos do grupo, ficando eu também pouco depois. Numa das decidas acabei por perder o contacto e já seguia sozinho, mas ainda que perseguido por mais 4 ou 5 elementos. Não parava, e mantive sempre corrida forte o quanto possível sem implicar um desgaste completo.
Obviamente acabaria por ser ultrapassado, a gasolina estava a entrar na reserva, e não estava a alimentar como deveria, e com aproximadamente 12 KM, fico à minha mercê vendo os restantes a distanciar-se.
Pareceu-me ter afectado aquele momento, parece que tinha quebrado, e só estava à espera de rebentar, não estava com grande motivação, mas ao mesmo tempo ainda continuava a lutar. Ainda faltava muito para terminar, e a prova disso era ainda ir apanhando alguns pelo caminho, mas sem sinal de vista do grupo em que seguia.
O segundo abastecimento era junto à capela de São Marcos, o que significava subir uma colina em terra, com rochedo cravado para dificultar a progressão.
Foi o abastecimento que demorei mais tempo de toda a prova, ainda que por uns breves 1 a 2 minutos.
Metia-se de imediato mais uma descida onde me enganei uma vez mais por não conseguir ver as fitas, e tive que avançar uma pequena vegetação para chegar ao caminho certo.
Estou mais moralizado, e volto a acelerar a passada, as subidas que vão surgindo já se fazem com mais facilidade novamente, as descidas também igualmente mais solto.


É para subir sim. Créditos na foto

Pensava que o pior já estava feito, mas ainda restava algumas subidas, e esta primeira que nos levava ao ponto mais alto da prova, começava com um suave zigue-zague. A coisa é minimizada, com um sobe e desce ligeiro ali pelo meio, como a falsa fé, até nos presentearem com mais uma subida, só que agora a direito, por entre árvores pedras, sem caminho. Não que fosse demasiado inclinada e/ou longa, mas dado massacre que levava de trás já sentia um inchaço junto aos joelhos.
Foram uns míseros 150 metros ganhos, em quase 1 quilómetro, e quando pretendia e queria descansar o quer que fosse, não dava, a descida estava logo ali, inclinada, mas pelo menos rolante, e de forma a que conseguia recuperar algum tempo perdido. Passava algum pessoal da prova de 15 KM, e isso acabaria inevitavelmente por tornar-se um objectivo. Não menosprezando ninguém, mas aquilo estava a tornar-se claramente uma motivação para mim, não ganhando nada com aquilo, mas era uma forma de me animar.


Créditos na foto

Era de facto nas descidas onde estava a conseguir encaixar-me, eram perfeitas para rolar, e conquistavam-me, um trilho bem aberto e com desvios constantes, às vezes somente em carreiros, outras já com o apoio das mãos em árvores, divertia-me, e aliviava a pressão que tinha nos músculos.
Restavam mais 3 típicas subidas e respectivas descidas, não tão longas como as outras era certo, mas inclinadas q.b. para rebentar os músculos por completo. Senti cada pontada dos músculos, e o efeito “bola” que estava a criar uns milímetros acima do joelho, sendo apenas aliviado quando deixava as pernas mais soltas quando descia ou conseguia correr normalmente.
Faltava pouco mais que 2 quilómetros para o final, e já não queria saber da constante pressão dos quadríceps, só queria correr, e o trilho das minas foram uma sobremesa tipo gourmet, deliciosa, mas pequena demais. Um trilho escondido no grande arvoredo, composto de folhas castanhas, e encostas verdes, uma delicia que deveria ser mais duradoura.
Restava apenas mais um single track paralelo ao rio para chegar à praia fluvial, e ali estava ela.

Tive que gerir a prova mais cedo do que previa, e isso levou-me à 22ª posição de uma prova com um inicio agridoce.
Foi uma primeira edição, mas penso que existe malta na organização com conhecimento necessário para perceber que é preciso mais para agarrar os atletas.
Foi provavelmente das provas em que usufrui menos do abastecimento, mas o suficiente para perceber que eram básicos demais, mesmo para uma distância de 25KM. As marcações, foram o que relatei acima, sendo boas, mas com falta de reforço em alguns pontos mais importantes. O percurso em si, está bem desenhado, mas acredito que consigam acrescentar ou alterar alguma coisa para o melhorar. Isto é apenas a minha opinião, baseada naquilo que experienciei.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Europarque Bio Run - Mete lama nisso


É o culminar de 3 provas, Trilhos Termais, Corrida Urbana, e agora o Bio Run.
Já a havia feito anteriormente, mas era prova que não me tinha conquistado, nem me chamava atenção necessária. Sendo a última das 3, com uma classificação final do conjunto, e estava minimamente bem classificado era a motivação necessária que precisava.
Estava em 9ª lugar, a uns míseros 3 pontos da 8ª posição, e também a uns poucos dos restantes, mas tinha que ambicionar apenas uma coisa, e colocar-me a um único objectivo, encontrar o 8º classificado e terminar à frente dele, só assim o ultrapassaria.


Foto da organização

O tempo era o expectável para aquela manhã, chuva e frio, e mal cheguei ao Europarque já a chuva se sentia algum tempo, o que prometia um piso escorregadio quando cruzássemos os trilhos. O percurso é de piso misto, estrada e trilhos, sendo estes últimos com menor percentagem, contudo o suficiente para abrandar quem quisesse andar, ainda para mais com as sapatilhas que levei, que nada apropriadas eram para aquilo que ia fazer.
Já o aquecimento estava feito, quando vejo os blocos de partida a serem preenchidos em massa, tinha que tentar colocar o mais à frente possível, o suficiente para evitar congestionamentos e confusões. Aguardava o tiro de partida, mas sem encontrar o 8º classificado, não o via, teria que ser durante o percurso.

Arrancamos poucos minutos depois da hora, mas com a velocidade de como estivéssemos a recuperar tempo, percorrendo uma longa recta com pouca inclinação.
O retorno já era feito em jeito de recuperação de caixa, até entrar nos primeiros trilhos. Foi logo ali, que vi o 8º classificado, a pouco mais que 100 metros de mim, e onde queria começar a controlar a distância. Os primeiros passos sobre o terreno enlameado, foram o suficiente para perceber a escolha errada no calçado, tinha que ter cuidado para não dar uma queda mais aparatosa.
Saímos rapidamente do trilho, e seguíamos pela longa calçada que percorre o parque, e de repente estava a poucos metros de distância do meu objectivo.
Pausei e abrandei um pouco o ritmo, não seria a altura ideal para atacar, nem para andar já com ritmos mais rápidos.


A voar para a segunda volta. Foto da organização

É uma prova incerta, tanto se esta a subir, como a descer, como em estrada ou em trilhos, é mesmo tudo misturado e sem folga para descanso. A subida em zigue-zague por rampas de acesso, uma descida abrupta em terra para um jardim e a subida em asfalto até ao terreno coberto de lama provavam que não poderíamos descansar, nem com tempo para recuperar o quer que seja.
O piso estava coberto com lama, e sentindo os pés a deslizar, tive que abrandar repentinamente e calcular o próximo passo.
A lama era abundante, o single track que se seguia colado ao rio, era o segmento que mais adorei, mas que era impossível de se fazer sem ver onde colocar o pé.


Junto ao rio. Foto da organização

A saída do trilho não era fácil, numa inclinação do jardim coberta de lama obrigava o uso das mãos para equilibrar e não deslizar por ali abaixo.
A típica volta ao lago era o local ideal para conseguir recuperar algum tempo, mas dado o uso forte das pernas, sentia-as duras, e limitei a manter o ritmo.
Saí de rompante pela escadaria, e seguia em direcção à ultima secção de trilho pela longa subida sobe um passeio.
A terra ali estava mais consistente, não era tão escorregadio, mas nem isso evitava de prever qual o melhor caminho.
E de repente estava na partida/meta, contava 5 quilómetros, e teria que repetir o percurso todo novamente.
Nada que eu já não soubesse à partida, mas que me aborrecia de certa forma, não fosse ter um único objectivo, e que já tinha fugido de vista algum tempo.
A passagem pelo asfalto era feita de imediato em velocidade máxima até ao retorno, local onde o revejo finalmente, e começo a tentar a aproximação.
Entrava no trilho e já o via novamente a poucos metros de distância, mas ainda era prematuro fazer alguma coisa. Apenas controlava a distância e não o deixava fugir, aproximando gradualmente.


Contornando o lago. Foto da organização

Nas rampas de acesso via que estava mesmo a poucos metros de mim, agora era gerir para logo depois poder atacar e avançar. Entrava no asfalto e a aproximação foi tanta, que pensei logo, “está feito”, apenas descolei-me um pouco quando se meteu de novo a secção com mais lama, queria seguir sem ninguém por perto, para não atrapalhar, nem a mim.
Contudo esta parte estava mais complicada, fruto da passagem de centenas de pessoas ali, o single track que ainda era minimamente acessível, estava impossível de correr sem o pé fugir. Estava prestes a terminar aquele terreno mais enlameado, restava subir até ao lago pela mesma subida que me obrigou a usar as mãos na primeira volta.
Agora não foi excepção, mas nem isso me valeu. Assim que estou quase a chegar ao cimo, começo a sentir os pés a fugir, e só paro na base da subida.
Foi o suficiente para perder posições e o contacto com o 8º classificado, as pernas ficaram duras do esforço que fiz para subir aquilo, não conseguia colocar novamente o ritmo que queria. Quando iniciava a última grande subida, já o via a uma longa distância, a entrar no último segmento de trilhos.

Tentei ainda o último quilómetro a ver se conseguia aproximar, mas não deu. Aquele deslize foi o quanto bastou para perder aquela que provavelmente, em circunstancias normais, seria uma vitória para mim.
Apesar de tudo considero ter feito uma boa prova, tendo perdido pelo terreno estar coberto de lama, e consequentemente a má escolha do calçado.

Tendo faltado no ano anterior, penso já ter havido algumas melhorias por parte da organização, contudo, não considero ser o meu tipo de provas de eleição, não sendo uma prova de estrada, nem de trilhos.