quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Freita SkyRunning - Fantástico


Já foram algumas as vezes que a explorei, não em todo o seu vasto comprimento ou altura, mas já vou conhecendo alguns pontos. Sempre que a visito, descubro novos locais, novos pontos, uns mais visuais que outros, mas sempre surpreendentes. São raras as vezes que não paro para contemplar alguma paisagem, nem que seja para uma simples fotografia daquela imensidão. Esta serra faz-me lembrar o quão pequenos somos, e a dimensão totalmente remota daquilo que vivemos no nosso dia-a-dia.
A Freita conquista-me cada vez que a visito, e ao mesmo tempo molda-me a mente. Quando a piso, penso que já estou habituado a ela, e que posso vaguear à minha vontade. Não podia estar mais enganado. Acabo sempre por recuar nas ideias e respeito-a, e só desta forma aquela rochosa serra me convida a entrar e aguarda o meu regresso.


Foi assim no primeiro fim de semana de Outubro. Dois eventos com características semelhantes divididos entre Sábado e Domingo. O primeiro era a novidade, com uma bruta subida ingreme, encosta acima num final de tarde. O segundo era a estreia para mim, na segunda edição de uma prova dura de roer.
Para aquele fim de tarde o “Freita Vertical”, como lhe chamaram, era na sua essência isso mesmo. Desde o fundo de uma colina, até ao topo da montanha, com a surpresa de terminar na torre meteorológica. As surpresas tendem a ser boas, neste caso foi agressiva, dado o facto de ter que subir 45 metros em escadas, após ca. de 4 quilómetros a “trepar”.
Eram 19 horas, e a luz do dia era escassa, e quando o primeiro partiu serra acima, rapidamente caiu o escuro da noite. Era difícil de os ver, apesar da excelente “varanda” onde nos alojamos para nos privar um pouco do vento que nos rodeava. Aguardamos alguns minutos, e finalmente começamos a ver o primeiro “pisca-pisca” bem lá no fundo. Um pequeno frontal que ao perto parece não conseguir iluminar mais que 20 metros, conseguia-se ver a uns 3 quilómetros de distância. Aos poucos vão surgindo outros “piscas”, e era assim que rapidamente se ia formando a única fonte luminosa que serpenteava aquela serra.
Aplaudimos todos que ali passaram ao nosso lado, e gritávamos um “força”, como se de alguma maneira aliviasse um pouco a dor ou sofrimento, mas que sabíamos que ia dar aquele incentivo extra.


O Hugo foi o único do nosso grupo que quis o desafio a dobrar daquela serra. E daquela noite só nos indicou que estávamos tramados para a etapa de Domingo. Mas isso já sabíamos, só ainda não percebíamos o quanto.

Aquela manhã fresca, não estava nas minhas contas, mas era animadora. Se me propusessem correr com manguitos num dia pouco assoalhado, ou com o mínimo de roupa, devido ao forte calor, a minha escolha cairia sob a primeira hipótese.
Dos vários “bitaites” que foi captando de boca em boca, uma coisa era certa, aquela subida que era comum aos dois dias, era agreste, e o segredo estava na gestão inicial, ou seja, nos primeiros 16 quilómetros de 25 na sua totalidade.
Eram duas distâncias que à chamada, para a partida, eram alvo de controlo de material. Foi tudo feito um pouco sobre o joelho o que se tornou um pouco confuso, retardando um pouco a inclusão de todos no pórtico atempadamente. Regras, são regras e nesta estou de acordo, para além de facilitar o trabalho a quem intervém em situações de risco, também pode ajudar o próprio em diferentes casos.

Controlei cada passada desde início, e em terrenos que conhecia não tive a ousadia de abusar.
Era um verdadeiro carrossel, logo à saída da aldeia de Felgueira. Sobe desce, desce sobe, entre estradões, ou trilhos carregados de pedra.
Seguíamos juntos, cerca de 4 a 6 atletas, misturando entre as distâncias de 42 KM e 25 KM, ultrapassando uns aos outros, mas sem nunca haver alguma fuga de quem quer que fosse.
Curta passagem pela aldeia de Cabrum, e voltava a subir até à Felgueira. Foi dos percursos mais engraçados, pelo meio da flora mesmo junto a um pequeno riacho, e moinhos abandonados, intercalando entre algumas escadas.
Agora, entre estradões, o grupo vai dispersando, e eu acabo por ser o primeiro a afastar, ficando sozinho. Conscientemente, fiquei mais alerta para a gestão, o que na prática era facilmente colocada de lado, dado a facilidade que havia em aumentar a passada, e saborear aquelas descidas apreciando os vales do nosso lado.


Era o regresso a Cabrum, a pequena aldeia, mas onde estava a maior presença de apoiantes ao longo do percurso, e onde estava o primeiro abastecimento. Naquele pouco tempo que ali estive, revi aquilo que havia feito até ali, e o que me restava.
O que ainda faltava vir, era a parte mais dura, subida louca, e terreno técnico. O que tinha deixado para trás, e que acabara de consciencializar, para além do longo carrossel foram as imensas ultrapassagens que até ali fiz. De facto, estava a correr às mil maravilhas, e tudo indicava estar bem posicionado. Foi o meu grande foco para o que se seguia.


De volta ao caminho, sem grandes correrias iniciais por entre campos, até a uma levada que a correr era uma impossibilidade.
Não era a melhor levada que havia percorrido. Talvez de todas as que até hoje fiz, a mais acidentada, e que menos confiança me deu, devido aos estreitos caminhos que a circundavam. Ainda vi a oportunidade de colocar integralmente o pé naquela água fresca, mas o solo era escorregadio, o que seria um cenário ainda pior. Foi assim até chegar a Paraduça, aldeia que aguardava chegar por conhecer em parte o percurso que nos ia levar até à subida. Ou assim pensei eu.

Dali até ao ponto inicial da grande escalada, sabia que ia entrar num estradão bastante rolante, e acabei por me soltar um pouco, mas sem grandes abusos. Estava convencido que já sabia o caminho por ali já ter passado, mas trocaram-me as voltas. Não me enganei na fase inicial, mas quando vejo uma tremenda encosta coberta por agulhas de pinheiros e um ou dois indivíduos a trepar, percebi que afinal não estava totalmente certo das minhas ideias. Foi massacrante aquela subida, seria uma pequena amostra, e um pequeno aquecimento das pernas.
Dei mais uso às pernas nesta pequena subida do que em todo o trajecto até ali já feito.

Chegava ao topo com a quase tentativa de um monte de explosões naqueles músculos mesmo acima do joelho que tanto se manifestavam.
Regressava de novo ao estradão que conhecia, e nos levava a descer até às Berlengas.
Desde aquele pinhal, o terreno rolante terminara. Dali para a frente seria verdadeiros desfiladeiros que iriam ser atravessados. A descida era mais um exemplo disso, terminando mesmo junto ao rio.
Dali para a frente seria uns cerca de 4 quilómetros com ca. 800 metros D+.

Pequena perspectiva da subida
Enganava-me, pensando que seria canja. O início não me era desconhecido, entre os imensos degraus das escadas do martírio. Penso que toda aquela escadaria seria bem mais leve que aquilo que fizemos. Fugimos dos degraus e descemos novamente ao rio, e aí sim iniciava-se a verdadeira tortura.
Não encontrava as fitas, nem se avistava trilho, achava estranho, as marcações foram sempre impecáveis, ali estava alguma coisa a correr mal, algum deslize. Quando olho mais em meu redor, consigo ver uma fita mesmo por cima de mim, mesmo no cimo de uma rocha um pouco aguçada que escondia o trilho entre a vegetação. Era o princípio da escalada, com a ajuda das mãos, e o forte apoio dos pés em qualquer apoio que aquela rocha tivesse, e com pequenos impulsos para a subir. Chegava ao trilho, contornava um pouco a rocha e mais do mesmo, fitas sempre acima de mim, e mais rochas para trepar.
Não estava a dar, assim não ia conseguir.
Tinha conseguido chegar ali em perfeitas condições, mas agora estava ofegante, sempre com sede e com receio que a água não desse para chegar ao abastecimento que existia a meio da subida. Cada passo que dava era um sacrifício, as pernas estavam duras, sentia cansaço e não estava a dar para continuar. Queria sair dali, e abrandar toda aquela tortura, mas estava a ser complicado.

Muita coisa me veio à cabeça, má gestão, desidratação, cansaço acumulado, inúmeras hipóteses…
- “Calma João. Isto é somente uma fase, recompõe-te e tudo irá correr bem.”
Parei ali no meio daquelas rochas, entre os arbustos. À minha frente, iam-se distanciando aos poucos, o que não me incomodava, afinal só queria era sair dali. Atrás não vinha ninguém, por isso não impedia a passagem de ninguém.
Fecho os olhos e respiro fundo umas, duas ou três vezes, e fico sereno. Tomo um gel, verifico a água que me resta, dando uns pequenos goles para ajudar a “empurrar”.
- “OK. Esta é a água que me resta até meio da subida. Lá abasteço e logo se vê. Vamos lá João. Tu consegues”.


Mantinha a cabeça erguida em procura de fitas. E pé ante pé, lá fui prosseguindo, mas desta vez não ficava ofegante, as pernas já não prendiam nem sentia o cansaço a cada pequena porção de terra que subia.
Aos poucos a tortura suavizava. Nenhuma tortura é suave, mas esta dava impressão disso. As pedras aguçadas foram desaparecendo, o caminho também alargava, e o piso já não era em terra. Agora estava a céu aberto, pisando pedra bem entranhada na terra, os pinheiros afastavam-se de nós e o calor apertava.
Não havia tempo para descanso, nem pausas. Não agora. Não agora que estava a correr bem sem que nada me fizesse recuar. Aos poucos vejo a carrinha dos bombeiros na travessia de estrada que existia, e onde estava o ponto para abastecer. Era ali, mas ainda está bem longe.
Consoante avanço e serpenteio de um lado para o outro, pelo menos nesta fase inicial, vou vislumbrando o topo, mesmo onde termina a subida.

Lá em cima no dia anterior, não dava para ter a real noção da dimensão que aquilo era. O quão agressivo e incrível aquilo é. Não quis muito focar no ponto mais alto, mas sim no intermédio, local onde ia abastecer os flasks que já começavam a ficar “amassados” por não existir nada que os preencha.
A carrinha vermelha vai aumentando de tamanho, e finalmente vejo um pequeno grupo de pessoas no alto, e estrada. Ali estava provavelmente o ponto médio daquele segmento, e de me rejuvenescer.

Estava feliz por ter água novamente, dali até ao próximo abastecimento não iria certamente desidratar. Agora era a última secção da subida, e se o piso mantivesse fiel ao que até ali foi, podia dizer que até era relativamente fácil para o que esperava.
Mas não. Não ali, nem dali para a frente. O terreno tornou-se completamente acidentado, com muita pedra solta, e com ligeiro aumento da inclinação. O completo céu aberto e sem pontos de referência sem ser o longo caminho até ao topo contribuía para o desgaste psicológico. Cerrava os dentes, e olhava para cima de vez em quando para dar apenas uma espreitadela, mas o piso obrigava a calcular o melhor pouso para apoiar o pé.

Vindos mesmo lá do fundo de tudo, mesmo atrás da pequena elevação
A minha vista apenas aguardava a ver aquelas pedras aguçadas onde na noite anterior me sentei para ver os “trepadores”. Sabia que iria ser complicado atravessa-las, mas dali para a frente as coisas melhoravam. Na única hipótese que tive de colocar um pequeno trote, rapidamente sou interrompido, ali estavam elas. Seria apenas uma questão de alguns metros e passos bem orientados e estava feito.

O abastecimento estava logo ali, cerca de 200 metros e podia finalmente alimentar. Era o que necessitava para terminar o último quilómetro de subida até à torre meteorológica, e estava feito. Ainda perco algum tempo, e na saída, tento correr devagar, mas não consigo.

Uma pequena má disposição estava a impedir de prosseguir em condições. Vou tentando acalmar a coisa com água, em pequenas porções, e vou minimizando a situação.
Até à torre onde terminava a subida segui a passo, só quando estivesse em condições é que voltava a correr, fora isso não queria saber de mais nada.
Ali estava ela, um dos pontos mais altos da Freita, a torre que indicava o final da tortura.

Chegada às "Berlengas"
Tinha que apressar o passo, o vento arrasta um ar mais fresco, e começo a arrefecer. A corrida tinha que ser improvisada de alguma forma, e lá tento dar os primeiros passos.
A indisposição vai atenuando, e as pernas começam a soltar-se um pouco mais. Não quero abusar, e mais resguardado vou progredindo.

Desço a colina em direcção à aldeia de Castanheira, e num rápido desvio direcionamo-nos para Felgueira, bem lá em baixo.
Já estava recomposto, e quente novamente. A descida não tem muita história, era relativamente acessível, e rápida de percorrer. Em pouco tempo chegava a Felgueira, por entre as casas já antigas até ao ponto onde havia começado naquela manhã fresca.


É sem dúvida uma prova enganadora. Uma má gestão na fase inicial é o suficiente para condenar o resto da prova. É de facto uma prova fantástica, trilhos diversificados, rolantes e duros, sem nunca saber o que encontrar.

A Serra tem destas coisas, e a Freita tem destas coisas.
Esteve simpática comigo, deu-me alguns socos, mas consegui sempre levantar.
Mostrou-nos sítios fantásticos, e terríveis, e esconde muitos outros.
Misteriosa esta Freita.




terça-feira, 9 de outubro de 2018

Trail Serra da Freita - Aos poucos vai lá


Não antevi outro cenário que não este, regressar onde tudo começou, à Serra da Freita.
A primeira incursão nesta prova foi há cerca de 1 ano atrás, e com alguns problemas que existiu no decorrer da prova, e uma descida improvisada em cima do joelho, fiz questão de dar uma nova oportunidade. Foi também oportunidade para levar alguns estreantes na prova, e outros que disseram que ali não voltariam.
Em pleno final de mês de Junho, o cenário que antevíamos era de imenso calor, e de grande preocupação com a chegada ao topo da serra, ficando mais expostos ao sol. E ao contrário do que se esperava, o dia esteve cinzento, com o sol a mostrar o ar da sua graça em poucas ocasiões. Uma chuvada, idêntica à que durante a noite me fez acordar, era uma possibilidade, o que fez com que tivesse que juntar um impermeável ao meu equipamento. Não era espectável aquele tempo, contudo, agora agradeço, dada a temperatura que esteve, que era óptima para correr.

Créditos: Organização
A proximidade das localidades, facilitou o levantamento dos dorsais ainda no dia anterior, para evitar correrias de última hora.
Dia da prova e lá nos encontramos cedo, para rumar a Arouca, com 7 elementos que iríamos aos 26 KM pela Serra da Freita.
Encurtaram a distância cerca de 2 KM em relação ao ano passado, o que a princípio pensei que fosse algum erro de calculo por parte da organização, mas estava enganado, eram efectivamente entre os 25 a 26 KM.
A concentração é feita no pavilhão, onde é feito o controlo zero para a partida no exterior das instalações. E à hora anunciada estávamos a dar os primeiros passos de corrida.

Créditos: Organização
O arranque é feito pela estrada principal, encaminhando-nos logo de seguida por umas ruelas, que nos levavam ao início da subida para o topo da serra. As pequenas passagens pelo asfalto era apenas um elo de ligação com outros trilhos. Estava a recordar-me de todo aquele percurso da edição de 2017, e tinha mais ou menos noção do que ainda faltava, sendo a parte mais complicada nos primeiros quilómetros. Eram as subidas com mais inclinação que me colocavam as pernas mais duras, a lama era uma preocupação para não escorregar, e os single tracks que existiam eram brutais de mais para não se correr, serpenteando aquela encosta. Recordava-me de um, que tinha adorado, mas que sabia que me ia dar mal, e não foi para menos. As pequenas árvores que vão crescendo novamente, devido aos incêndios, são uma fantástica ajuda para progredir, dado a terra batida que a cada passo que dávamos era uma possibilidade de o pé escorregar.
A subida não é de muita confiança, sabemos à partida que são cerca de 8 KM até ao topo, mas pelo meio vamos tendo direito a pequenas porções de planos ou mesmo descidas para poder rolar, o que vendo bem, acabava por ser bom para soltar um pouco as pernas, mas enganando o zé povinho quando sabe que a subida só termina chegado às eólicas que estão mesmo no cimo da Freita.

Aos poucos vou vendo as enormes pás das eólicas girando, e sei que estou mesmo a terminar. O céu cinzento que nos cobria já ia mostrando um pouco o seu azul, e vamos tendo as fantásticas vistas sobre toda as nuvens que havíamos furado no decorrer daqueles quilómetros, e que agora ficavam para trás. Coloquei quase todas as minhas energias nesta fase, e o abastecimento foi a minha fonte de energia. Passei pouco tempo ali, mas o suficiente para ganhar energias para o que havia a ser feito no alto da serra.
O trajecto era o mesmo, e em nada modificou, e assim prossegui rumo ao segundo abastecimento antes da descida.
O percurso era irregular de início, e bastante acidentado, propicio a torcer algum tornozelo, seguido de um PR que já conhecia, mas em sentido contrário ao que agora fazia.
A escolha do caminho no topo da Freita, foi do mais simples que houve, aproveitamento de trilhos abertos e PRs. Felizmente, escolheram a parte mais técnica e bonita de um deles, junto ao rio. O resto era mais do mesmo.

Créditos na foto
Chegado ao abastecimento, foi com mais calma que me alimentei, aproveitando para recuperar alguma energia. Sabia que a descida iria começar dentro de pouco tempo, e que existia uma secção que iria ser uma valente dor de pernas.
Enfim, lá me mentalizei, e segui, sem antes ainda ter umas pequenas subidas, onde estava a querer quebrar. Se no 1º abastecimento a curta passagem, consegui recuperar, neste com uma pausa um pouco mais longa, não estava a conseguir. Os músculos estavam presos, e sentia cansaço. Intervalei a corrida com caminhada, e minimizar os esforços ao máximo, mas já estava a iniciar a descida. A descida é um trilho completo de pedra solta e rolante, o mínimo de deslize era queda certa. A correr por ali com as pernas presas estava a ser um sacrifício, caminhar era difícil, e o travar era massacrante para os joelhos. Teve que ser uma mistura destas duas últimas e de alguma maneira lá consegui. Quando finalmente penso que aquele tormento todo havia terminado, surge um dos novos trilhos que era mais do mesmo.

A melhor descrição que ouvi daquela descida foi a de um atleta que ali ia comigo – “eles chamam a isto de trilhos técnicos, mas isto para mim é trilhos fodi#@$ (se é que me entendem)”.
Foi sem pressas que fiz toda aquela descida, em que os joelhos teimavam em manifestar-se. Nem tudo era mau, de facto foi uma alteração que foi bem mais que bem-vinda em relação à descida das edições anterior. Era mais técnica, mas mais versátil que a monótona que teríamos que fazer.
Apesar de daquele terreno rude, o final foi a passagem para uma das partes mais bonitas de todo o percurso. Toda aquela descida em pedra, era feita em céu aberto, encaminhando-nos para uma floresta cerrada pelas árvores.

Créditos na foto
Entramos num ambiente totalmente diferente, o céu era coberto pela vegetação das árvores, o piso era composto essencialmente por folhas caídas das árvores, e terra batida, e paralelamente ao nosso percurso havia pequenos riachos, que por vezes era o nosso local de passagem, como que um refresco para os pés. Vinha de um local que era difícil correr sem pensar duas vezes antes de dar um passo, chegado ali, num terreno bem mais rolante, as baterias foram carregadas automaticamente sentindo as pernas soltas e pronto a conseguir dar novamente uma espécie de corrida.
Não era por ser um espaço bem mais agradável, que era mais fácil. Exigia outro tipo de atenções, e de saber controlar o ritmo de forma a não quebrar. E foi aí que falhei. Já num segmento que ligava o percurso aos caminhos da recta final coincidentes ao ano anterior, as pernas começaram a dar os primeiros sinais de desgaste. Aqueles músculos mesmo juntinhos aos joelhos começavam a dar as picadas, de quem como se manifesta para parar. O facto de nos 2 últimos quilómetros serem praticamente em estrada, e totalmente desinteressantes não ajudou em nada, e só me restava atravessar a desejada meta.
Entrada no recinto do pavilhão com direito a subida pelas escadas, e regresso ao pavilhão para concluir mais uma passagem pela Freita.

A comitiva
Conseguiram melhorar significativamente o trail mais curto, e o contentamento foi unânime para muitos que ali estavam. Além de o melhorarem fizeram-no cerca de 3 quilómetros mais curtos, mas mais desafiante. Com abertura e descoberta de novos trilhos que tornaram esta distância bem mais interessante.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Hard Trail Monte da Padela - "Inclina-te"


Após ter deixado passado passar a oportunidade de experimentar uma prova de Skyrunning, na minha terra, fiquei com curiosidade em me testar nesta modalidade e ver como seria a diferença relativamente a provas de trail. Não conhecia a Padela, nem a região em questão, muito menos a prova. Foi como se aparecesse do nada, e me chamou à atenção mal a vi. Não era para menos, tendo em conta que a prova tinha uma parceria com a Compressport, e ofereciam uma t-shirt da marca que achei lindíssima. Após algumas buscas por vídeos de outras edições, fiquei admirado pela “coroa”, chamemos-lhe assim, daquela prova. Um piso rochoso que fazia lembrar algum concurso de alpinismo. Foi aí que fiquei rendido. Iria à prova, em primeiro pela camisola, e depois por aquela subida.



Ainda foi possível reunir 5 atletas para madrugar, e partir para Barroselas. Todos iriamos para a distância mais curta (15 KM). E o motivo era simples, todos estreantes em Skyrunning. Aliado a ter realizado uma meia maratona na semana anterior, foi a escolha mais sensata. Viagem feita debaixo de nevoeiro à semelhança do que já tinha passado no fim de semana passado, a juntar algumas gotas pelo caminho, mas chegado ao local, aos poucos abriu, e num dia ameno estava tudo pronto para a brincadeira. O levantamento dos dorsais foi fácil e rápido, e a viagem para o local de partida também sem problemas. Uma vez mais uma prova linear, e com transporte por parte da organização. Chegamos cedo ao local de partida, e ainda deu para dar um aplauso e animo a quem partia para os 20 KM, tornando o ambiente um pouco mais festivo.

Créditos na foto
Dado termos seguido logo no primeiro transporte, tivemos que aguardar ainda algum tempo para chegar a nossa hora, o que deu para ainda ver se conhecíamos alguma coisa naquele perímetro, contudo a única antiga e pequena igreja era a única “atracção” nas redondezas. Assim que se aproxima a hora, juntamo-nos à comitiva toda que ali aguardava para o arranque.
O meu estado de espírito para andar a correr naquele momento era quase nulo, estava sem apetite e a vontade em voltar para o autocarro e voltar para trás era grande. Aliás, assim que levantei a t-shirt, disse que o objectivo estava feito, por mim já ficava no carro a dormir, e esperava por eles chegarem. Mas lá me forcei a ir.
Sem grande atraso, lá foi dado o sinal de partida, e seguimos lançados para a “diversão”.
Arranquei praticamente do fundo do pelotão, e não estava com grandes pressas, estava a seguir num ritmo confortável, mas naquele momento queria terminar aquilo depressa, então, iria tentar a minha sorte e logo se via, podia ser que despertasse, e saísse aquele ar de sonolência.

Era a subir o primeiro quilómetro, entre estradões largos, uns já vão caminhando, outros, incluindo eu, tentando num trote simpático avançar no terreno. Apesar das inúmeras pessoas que ultrapassei o mais que previsto engarrafamento iria acontecer, assim que nos enfiamos numa pequeníssima levada. A fila era enorme, e ultrapassagem era pôr em risco tanto a nós como os outros, contudo, nem tudo era mau, assim foi fácil para recompor a caixa minimamente para depois seguir tranquilo. Nova subida para nos tirar do single track, e levar-nos a novo estradão, que já deu para dispersar e andar à vontade. Subida até a um pequeno cume, bem verde, e temos a primeira descida. Já estava a ter uma pequena noção do que realmente distinguia o trail do skyrunning, e estava a gostar. A descida era espectacular, e deu para abusar moderadamente, saí disparado, mas lembrei-me logo que poderia estragar joelhos para o final da prova, e contive-me.

Foto: Organização
Ao longo do percurso, fui-me apercebendo que assim que terminávamos alguma descida ou subida, o espaço que existia entre o seguinte declive era curto, e quando havia terreno para rolar, já era com alguma ligeira inclinação, não existindo tempo para descansar as pernas. Arranquei com manguitos devido à temperatura fresca daquela manhã, mas nesta altura já os tinha retirado, e a sonolência já tinha desaparecido. As inclinações eram sempre brutais, incluindo algumas técnicas, e as descidas eram mesmo ao meu gosto, chegando ao ponto de me esquecer por vezes que devia abrandar, só lembrando quando aqueles músculos começavam a dar sinais de uso. Somente na passagem pela descida em calçada romana, em que o piso era bastante escorregadio, é que não abusei, lembrei-me logo na possibilidade de um valente bate cu. Estávamos a chegar ao primeiro abastecimento, que continha o mais básico, e o suficiente para aquela altura, e foi altura também de juntarmos aos atletas dos 20 KM.

Créditos na foto

Créditos na foto
Com alguns quilómetros a mais que nós, já iam com uma passada mais branda, mas facilmente cediam passagem. Logo após o abastecimento, seguimos para o trilho mais bonito de toda a prova, e dos mais desafiantes. Junto ao leito do rio, iniciava-se uma subida de cerca de 250 metros, até ao ponto mais alto, com 400 metros de altura. Praticamente todo feito em single track no meio de uma vegetação bem mais densa do que tivemos até ali, e num ambiente mais húmido. Uma pequena corrente de água ia fazendo a delícia aos olhos, sempre que ficava com os gémeos a gritar comigo para abrandar um pouco. Sair dali, foi gratificante para as pernas, mas doloroso para a vista, apenas confundida com a vista em voltadas serras, e por alguns trajectos que já havíamos passado anteriormente.

Créditos na foto
Seria altura de “largar” os atletas dos 20 KM, e seguir nosso caminho para a “coroa” desta prova. Já a aguardava algum tempo, mas pensei que fosse mais para o final. Havia chegado a um abastecimento e apenas quis alimentar, e repor energias, sabia que estava a precisar, e ajudou-me bastante a recuperar. Era dos abastecimentos mais completos que vi até hoje, até bolas de Berlim tinham, para termos a noção do quão completo é, que até o supérfluo ali estava. Contudo, para chegar aos 400 metros de altitude, teríamos que subir mais. E enquanto me recomponho, tento ver qual o caminho a seguir, e é assim que vejo a enorme rocha que nos separava do topo. Uma autêntica escalada em piso rochoso com corda no meio para ajudar a subir. Seria por ali o caminho, e na minha ideia era ali que iria ser derrotado.

Foto: Organização
Altura de ver se conseguia subir sem escorregar, mas devido ao piso inicial da pedra, as sapatilhas deslizavam um pouco, então optei por seguir agarrado à corda. Já a meio, acabei por largar e subir facilmente sem escorregar. Felizmente não saí dali derrotado, e prova disso foi o à vontade que segui na descida. Primeiro por estradão em terra, mas rapidamente modificado pelo verde da erva. Já no final, em single track por entre algumas rochas, até a um pequeno parque de merendas. Adorei aquela descida.
A ideia de ali estar apenas pela camisola já era passado, estavam a ser subidas e descidas muito boas para estar a pensar apenas em brindes.

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Mas o melhor ainda não tinha chegado. Deram-lhe o nome de “UpHill”, que descreve na perfeição a última subida que faltava. Se a escalada rochosa, pensava eu, que era a “coroa” da prova, a subida que tínhamos pela frente rapidamente ter-lhe-ia destronado.
Chegara a altura de ver como todos aqueles músculos das pernas estavam, e conhecer outros tantos que provavelmente nunca foram usados.
Hora de pôr as ideias no sítio e subir calmamente sem estragar tudo. Aos poucos fui prosseguindo, vários atletas com quem até ali segui junto, estavam a começar a fraquejar, e abrandavam, fui ultrapassando e dos olhares que fui fazendo ao topo, estava a achar demasiado fácil. Ali no alto, estava uma barraca com música e pessoal a apoiar, a dar aquele incentivo extra, e assim que me aproximo deles, esbocei um sorriso, de conquista como se tivesse feito algo de outro mundo. Infelizmente, o sorriso desapareceu, e fiquei de boca aberta. A percentagem de inclinação deveria rondar no mínimo os 30%, nunca abaixo disso, e aquela barraca animada, num estradão que dividia a continuação do “UpHill”, escondia o que faltava. Quando olhei, rapidamente veio-me à memória os vídeos que vi da Red Bull com a prova “RedBull 400”, só para termos algum dado de comparação.

Créditos na foto
Créditos na foto
Agora compreendia o progresso mais lento de outros que havia ultrapassado, afinal não eram eles que estavam a fraquejar, estavam a precaver-se. Enfim, dentes cerrados, e siga conhecer os restantes músculos que as pernas escondem. Para o caso de alguém achar aquela subida era fácil demais, já a meio, o piso começa a complicar-se com alguma pedra solta, e terreno mais acidentado. As pernas estavam duras, mas ainda davam para chegar ao cimo. Últimos metros, e tento meter uma passada semelhante à corrida, mas felizmente e finalmente estava ali o último abastecimento antes da meta, mesmo no alto. Não cheguei a olhar para trás, para ver a imensidão daquela subida, mas também não sinto muitas saudades.

Foto: Organização

Foto: Organização
Como nos habituaram até ali, a descida não demorou a aparecer, e seria assim até à meta. Sem abusos inicialmente, mas com mais velocidade junto ao final até atravessar a meta.
A chegada até ao pórtico final, era entre vários apoiantes que tornaram aquela chegada mais animada.
Foram 15 KM de pura diversão e gozo, mas bastante desafiantes ao mesmo tempo. Consegui sempre gerir, sem nunca levar ao limite, e ter uma pequena noção de como realmente o SkyRunning funciona. A organização esteve impecável em todos os aspectos, não conseguindo apontar um defeito que seja.

Valeu bem mais que a t-shirt.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Meia Maratona Douro Vinhateiro - Muita suadela


Tinha tudo para ser perfeito, mas incrivelmente tive que ceder.

Voltei à meia maratona, e a minha primeira presença no Douro Vinhateiro, que já “namorava” algum tempo. Por não conhecer a zona, e também aproveitar para ter uma pequena ideia do que aquilo realmente é, tendo em conta o próprio slogan da prova “A mais bela corrida do mundo”.
Foi pena não ter tido a oportunidade de ir já no dia anterior e poder passar um fim de semana mais descansado do que as correrias habituais em levantar cedo para ir para a prova. Para a próxima já fica o aviso.

Sempre me indicaram como uma boa prova para fazer tempos, e que o slogan realmente fazia jus daquilo que presenciávamos ao longo dos 21 KM, mas se há coisa que fiquei mais impressionado, foi com as excelentes paisagens que fomos presenteados ao longo do caminho até ao Peso da Régua. Ao longo de todo o caminho a única coisa que conseguíamos ver era o cinzento e cerrado nevoeiro que aquela manhã nos oferecia. Mas a longa passagem pelo túnel do Marão fez com parecesse que acabávamos de entrar num mundo totalmente à parte. O que era cinzento havia tornado azul com algumas nuvens brancas dispersadas, com o brilho do sol a iluminar as imponentes verdes montanhas que nos rodeavam.
Tinha sido uma noite muito mal dormida, e aquela paisagem fez-me arregalar bem os olhos quando ainda teimavam em ceder.
Muitas vezes imaginei vários cenários da minha pessoa a subir aquelas montanhas (o bichinho do trail também me acompanhou).

Créditos na foto
Barragem, local de partida. Créditos: Organização
Chegado ao local aguardei por uma amiga que teve a feliz ideia de já ir no dia anterior, e me fez o favor de levantar os dorsais.
Eramos 2 indivíduos, e 1 individua que tentávamos a sorte naquele dia em nos divertir, e o pequeno passeio ali junto ao rio Douro antes de arrancarmos para a partida, começou a mostrar-nos a realidade do que iria ser aquele dia.
Se inicialmente pensávamos que poderia chover, com a chegada à Régua, mudamos de opinião, e quando ainda pedíamos para pelo menos estar um ambiente fresco, aos poucos concordamos que aquele dia ia ser complicado. O calor começava a apertar, e já nada nos fazia acreditar que a temperatura iria baixar, que juntando à tardia hora de partida, 10.30h, quando o sol já se encontrava bem alto, a partir daí era a piorar.

Créditos na foto
Nada feito, o cenário era aquele, e seria assim que teríamos que gerir e chegar ao final.
Era um percurso linear, com chegada na Régua, e partida na barragem de Bagaúste, que felizmente já incluía na inscrição o transporte de um local para o outro. Escolhemos o comboio, e à hora marcada lá estávamos a ajudar a encher as várias carruagens que nos levava até junto da barragem.
A confusão já era muita, com muita gente da caminhada que nos gentilmente fazia um corredor para podermos avançar até junto do pórtico de partida. Já se encontravam bastantes atletas, e aos poucos o pouco espaço vazio foi enchendo com a continua chegada de autocarros e comboio. Tentei colocar-me junto do balão para o qual me tinha inscrito, 1.30h, mas já fiquei mesmo no final. Já aqui falei deste assunto, mas não entendo a falta de bom senso do pessoal que teima em se inscrever para um horário e se coloca fora do mesmo.

Créditos: Organização
Ainda aguardamos cerca de 20 minutos pelas 10.30h, debaixo do forte sol, quando foi dado tiro de partida em primeiro para os que mais admiro no meio de uma imensa multidão. Os atletas de cadeiras de rodas que partiam assim antes de nós cerca de 5 minutos.
E assim passado esse tempo era a nossa vez para os 21 KM bem quentes.
Fui com objectivos para uma prova que me pareceu acessível para tempos, tentando bater o meu recorde, ou se não o fosse possível tentar aproximar ao meu melhor tempo.
Saindo da barragem, virávamos à esquerda seguindo em direcção a Pinhão, ou seja, na direcção oposta da meta presente em Peso da Régua. Eram cerca de 7,5 KM até ao ponto de retorno que nos remetia novamente pelo mesmo local até ao local de partida, quando já acumulávamos mais ou menos 15 KM, onde mentalmente previa fazer o ataque ao tempo final.
A forte presença de atletas em toda a largura da estrada fez com que para ultrapassar toda aquela confusão teria que andar em ritmos algo desconfortáveis e incertos, contudo consegui com que os ritmos fossem sempre constantes. Fui mantendo sempre o ritmo dentro dos 4.30 min que era o que pretendia, e a longa descida que fizemos até ao retorno facilitou esse aspecto, mas tudo aquilo que havíamos descido teria que ser para subir.

Créditos na foto
Feito o retorno, começa um forte vento em sentido contrário à minha progressão, o que para mim, e que certamente para quase todos, se não todos, é uma lapada bem assente na cara.
E foi ali que algo na minha cabeça não estava a bater certo, porque quanto mais avançava no terreno que acabara de passar, achava tudo muito estranho. Quando pensava que iria subir, havia descidas e mais planos, o que originou uma grande confusão na minha cabeça, pois olhando agora para o gráfico, foi sempre a subir, mas naquele momento, parecia-me planos e descidas, e poucas subidas. Não consegui perceber o que se passou ali, mas foi algo estranho.

Créditos: Organização
De toda a forma, avancei sempre sem problemas, e como queria, até aos 10 KM, mas iria ser também o meu ponto de viragem para o que ainda restava.
O calor estava a dificultar cada passo que dava, e uma reviravolta na minha barriga estava a causar um tormento enorme para conseguir manter o ritmo que até ali mantive.
Tentei encontrar alguém com ritmo semelhante que conseguisse “colar” e manter, e já o vinha a fazer algum tempo com outro atleta, mas que mais à frente deixei de o ver, ficando sem saber se tinha ficado para trás, ou se teria avançado. Todas as outras “lebres” que fui procurando não resultaram, pois avançavam e não consegui acompanhar, ou o vice-versa.
A tentativa em olhar para a paisagem e distrair-me também não foram a melhor força que arranjei, mas ajudou ao longo de alguns metros, em certas partes do percurso.
A única coisa que me dava algum alento, era quando passava pelos abastecimentos, que foram muitos, e bastantes úteis dado as elevadas temperaturas, quando conseguia refrescar e hidratar. Sabia que devia tomar o gel para recuperar forças que estavam a desaparecer em abundância, mas o receio em uma forte indisposição era grande, e fui adiando.

Dos apoios mais animados! Créditos: Organização
A única forma que consegui criar algum alento a mim próprio, foi uma luta psicológica comigo mesmo, obrigando a avançar custe o que custasse, e foi esse o grande empurrão que levei para continuar. O objectivo já teria sido colocado de lado, e apenas implorava pelo final, e por chegar bem. Com a passagem pelos 15 KM, sabia que dali para a frente seria praticamente a descer, e ansiava por isso, para conseguir abrir a passada e recuperar os poucos segundos que fossem.
Era a altura de arriscar tudo, e decidi que iria tomar o gel, desse por onde desse. Se me sentisse mal, encostava à longa extensão de matos que íamos passando e desenrascava-me como tivesse que ser.
Tentava arriscar em avançar o passo, mas a indisposição não me permitia mais que aquilo. Pensei várias vezes em encostar, mas fui sempre adiando, até ter mesmo que parar para um rápido verter de águas, e prosseguir.
Pela primeira vez tive que parar em provas para o fazer, e não era para menos dado à grande quantidade de água que fui bebendo e virando por cima de mim ao longo de todo o trajecto.

Créditos na foto
A ansiedade em terminar era grande, e aqueles últimos quilómetros estavam a ser dolorosos.
Perto dos 20 KM entramos na ponte pedonal que atravessava o rio Douro e nos levava até à meta.
Esta travessia foi também a viragem de tudo o que presenciamos até ali. Antes, a única distracção eram as bonitas paisagens sobre o rio Douro, e as vinhas que o emergiam e algumas poucas dezenas de apoiantes que encontramos. Agora a paisagem era ofuscada pelo longo corredor humano, ao longo de pouco mais de 1 quilómetro até à meta. E isto era tanto do lado esquerdo, como do direito, um forte apoio, que fez com que os tempos que vinham a piorar até ali, conseguissem melhorar substancialmente. Sem querer sobrepor o nível paisagístico ao aglomerar de pessoas, mas foram estes que nos últimos minutos me deram as últimas forças para conseguir atravessar a meta e finalizar.

Não consegui manter o tempo que previa, mas dado aquilo que se passou, pensava que iria distanciar-me muito mais do que os 3 minutos a mais que somei ao meu tempo recorde. Era um dia não, para a meia maratona, e olhando bem para todas as circunstâncias, acho que acabei por fazer uma boa prova, dentro daquilo que sou capaz, e uma excelente luta comigo mesmo. Noite mal dormida, forte calor, má disposição e vento, foram os obstáculos que consegui derrotar ao longo de um bonito percurso, com um excelente apoio envolvente, mesmo durante os primeiros 15 KM, com pouca gente a ver. Cada palavra de apoio dos vários voluntários que estavam nos abastecimentos foram um grande empurrão. De facto, o grande momento da prova foi o último quilómetro, rodeado de, atrevo-me a dizer, milhares de pessoas.
Uma organização impecável, e eficiente em todos os aspectos, com um único ponto que não gostei em não existir controlo dos atletas para os diferentes tempos que definem para a partida.

Créditos: Organização
E sim, o slogan da prova condiz bem com tudo o que ali fizeram.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

RunCambra 2018 - À terceira é de vez


Não há duas sem três, ou pelo menos é assim que se costuma dizer. E o Runcambra é exemplo disso.
Existe alguns motivos para esta insistência numa prova que tem progredido, contudo acho um pouco ainda verde, e uma alteração do percurso, que por sinal já se torna um pouco “enjoativo”, era bem-vinda. O grande motivo é por ser uma prova do local onde vivo, e que gosto de estar presente se não for mais para o convívio com muita gente conhecida. Os restantes são os óbvios, para além de ter sido no evento em que me estriei a correr oficialmente, existe a habitual teimosia, em tentar bater o meu record da prova a cada edição que passa, e para não estar aqui a enumerar outros que não têm grande interesse, a grande tenda no final com iguarias da terra que são a cereja no topo do bolo ao final de 10 quilómetros bem esquentados.

Grande momento da FunWalking (Foto da Organização)
Houve algumas alterações desde a primeira vez que participei, e uma delas era no dia anterior a realização de uma prova para a pequenada e uma palestra sobre cuidados e recomendações para uma vida mais saudável.
Acredito que a palestra possa ter sido interessante, mas a minha atenção esteve apenas para ver a pequenada onde o meu afilhado participara na segunda edição deste evento. Deu para notar um ligeiro melhoramento, e maior presença de pessoal neste evento. Nem tudo vai mal.

A prova deste ano seria em muito semelhante aos anos anteriores, e podemos começar pelo calor. Não sei por que razão, mas neste dia a temperatura sobe em flecha, e dificulta bastante qualquer que seja o objectivo de cada um para aquele dia.
Uma das soluções para este problema era de solução rápida e eficaz, antecipando a prova em 1 hora, dando o sinal de partida às 9h e não às 10h, que é quando o sol já se encontra numa posição agradável para queimar o terreno. A vantagem da hora tardia, é poder estar um pouco mais na cama, sendo um privilegiado em ter que apenas atravessar o parque da cidade para estar no local pronto a arrancar. Foi assim nas minhas duas primeiras participações, e à semelhança do ano passado, logo após um bom aquecimento consigo colocar-me bem na frente, mesmo atrás da elite que desta vez devido aos prémios serem bem mais tentadores fez-se estar presente em mais força que o normal.

Seria uma prova para competir comigo mesmo e ver se conseguia retirar novamente alguns minutos ao meu tempo do ano passado. O forte calor estava a dar-me que pensar, e teria que saber gerir a fase inicial para evitar problemas como do ano passado. Felizmente estava consciente disso mesmo, e tentei ajuizar as coisas mesmo antes de arrancar.
Então sem atrasos, às 10 horas estava dado o sinal sonoro para a partida, num arranque forte é certo, mas controlado. Após várias confirmações da estimativa do tempo final com o meu relógio, vejo que o ritmo era muito elevado, e gradualmente abrando. Estava com juízo e foi a melhor estratégia que fiz para o que aí vinha.
O primeiro quilómetro pode condenar toda a prova, se tivermos um arranque bastante forte, iremos pagar as favas quando chegarmos às subidas e descidas que tanto marcam presença ao longo de todo o percurso.
Créditos: Organização
Soube gerir este arranque confortavelmente, e não me dei aos excessos que sabia que conseguia, e mantive a calma para fazer a primeira subida, que poderia dar desgaste mais lá para a frente. Logo de seguida temos a primeira descida, também sem abusar em demasia, tento apenas recuperar ligeiros segundos perdidos, e sigo rumo ao parque onde se encontrava grande parte do apoio deste evento.
O controlo desta fase era o mais fulcral e consegui sem grandes problemas, daqui para a frente seria comigo mesmo e seria para atacar os tempos gradualmente. Nova subida até ao centro da cidade, e o ritmo foi unanime mal piso terreno plano, mais uma ligeira inclinação e uma vez mais sem grandes alterações consigo ser fiel ao que vinha a fazer.

Já habituado e com algum conhecimento, consigo aperceber-me de alguns atletas que ali vão com um ritmo semelhante ao meu, e que consigo “colar” e aproveitar para “descansar” um pouco, sem grandes sombras, à excepção do cruzamento no centro da cidade, qualquer sombra que se houvesse era aproveitada para tentar minimizar o forte calor que estava. Prova disso era o facto de a garganta estar um pouco seca.

O abastecimento chegou perto do final da longa recta, onde muitos desmoralizam e são derrotados pelas curtas, mas inclinadas subidas que vamos fazendo. A água ajudou a refrescar o corpo, e a hidratar o pouco que fosse, para conseguir o meu grande objectivo.
Finalmente temos a longa descida que nos leva para o trajecto onde normalmente é a minha derrota e tento encarar isso da melhor forma possível, sem nunca desanimar. O facto de me ter colado alguém que ia na mesma “onda” que eu, foi um grande aliado, e após uma zona de plano, tento atacar a longa subida que, psicologicamente, acaba sempre por me derrotar. Acabo sempre por ir a baixo aqui, mas logo após um novo abastecimento adicionado este ano devido às altas temperaturas, consigo fazer sem problemas. Desta vez não sairia dali derrotado, não este ano, não hoje. Certo que foi o quilómetro mais lento que fiz, e a respiração ficou um pouco descontrolada. Já em direcção ao centro da cidade revejo na minha cabeça o que faltava e estava a chegar a hora de começar a atacar.

Créditos: Organização
A longa recta minimamente plana, serviu para controlar a respiração e preparar para aumentar o ritmo. A minha “boleia” tinha ficado para trás, e surpreendentemente encontrava-me sozinho numa prova de estrada, atletas que me antecediam iam com alguma distância, e para trás os metros começavam a ser maiores em relação a quem ainda aí vinha. Pequeno desvio no centro da cidade e foi o ponto de viragem, por ir sozinho, todas aquelas palmas e apoio verbal estava direcionado para mim, e faltava cerca de 2 KM para o final que segundo as previsões do meu relógio estava a apontar para 43 minutos baixos. Teria que roubar ali tempo desse por onde desse.
Era a melhor altura para atacar, seria cerca de 500 metros a descer, e 500 metros em plano até entrar no parque pela última vez em direcção à meta num último longo quilómetro que consegue tramar a mente. Fim da descida, e já via resultados na previsão final com menos 1 minuto, mas mesmo assim queria mais, e teria que ser neste último quilómetro.

O que aqui podia tramar a mente, é o facto de conhecer o local e saber que a meta se encontra no lado oposto da minha posição aquando a entrada no parque da cidade. Para além disto, é uma zona completamente a céu aberta com o forte sol a continuar a queimar a cada passo para o final. As ligeiras curvas vão escondendo os pórticos da chegada, e a ligeira inclinação final. É aqui que 2 atletas conseguem alcançar-me e passar-me, sabia que conseguia um sprint final, mas optei por manter aquele ritmo certo e chegar com um sorriso à meta do que um ar de desgaste. Finalmente iria confirmar o meu resultado final, e com agrado consegui tirar ca. 3 minutos ao ano anterior que tinha sido uma valente pedra no sapato. Agora seria altura para celebrar com as iguarias da terra e uma bela cerveja preta.

Houve melhorias e algum esforço para proporcionar um bom momento a quem ali estava, mas acho que ainda há alguma coisa em falta, só não consigo perceber o quê. Talvez mais gente a participar, talvez uma alteração do percurso, e assim ajude a vir mais atletas. Parece que não, mas de todas as provas de 10 KM que percorri, esta consegue ser das mais difíceis, se não a mais difícil, podendo ser por aí a pouca adesão.
Deu para notar também mais gente nas ruas para apoiar, o que é bastante positivo, e notou-se mais com a passagem pelo centro da cidade. A entrega de prémios, foi uma festa autêntica, que coincidiu com o término da caminhada. Esta, que pelos vistos teve melhorias significativas sendo um autêntico festival. Modificaram o conceito da caminhada que tem sido habitual até há bem pouco tempo, e pelo feedback, foi um autêntico arraial cheio de actividades ao longo de todo o percurso. De salientar também a inclusão de animação em alguns pontos do percurso da corrida, que em conjunto com maior presença de apoiantes na rua, dá outro ponto extra à prova.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Trilhos dos Pernetas 2.5 - Uma bela "pernetada"


Antes de me iniciar nesta coisa de crónicas de corridas pela internet fora, também lia, e ainda leio alguns blogues que partilham da mesma paixão que temos por este mundo da corrida. Um deles é o do Carlos Cardoso, que me fez conhecer uma prova realizada por um grupo de amigos que também eles correm, imagem lá! Não pude comparecer na primeira edição, mas fiz questão de aparecer para a segunda, à qual chamaram 2.5. A maneira como publicitaram esta prova é diferente do que se está habituado e que me cativou para estar presente este ano. Geralmente vejo vídeos todos “catitas”, com paisagens e locais de passagem “XPTO”, que por vezes correspondem à realidade, e por outras leva-nos ao engano.
Aqui não, o método mais simples e arrojado, mas eficaz que tiveram para partilhar, foi com vídeos entre eles numa forma descontraída e cómica de forma a mostrar alguns dos locais que passaríamos, no “quintal” deles, como lhe chamavam. Não que fosse algo fora do comum, ou que realçasse alguma particularidade, mas sempre avisaram que não ia ser fácil e alguns percursos bastantes técnicos.

Como se pode levar a sério?
Numa forma mais invulgar, foi escolhida o feriado 1 de Maio, para realizar o “Trilhos dos Pernetas 2.5”, era uma terça-feira. Não seria por aí que me iria conter, e enchi-me de peito para enfrentar os 32 KM, que a organização continuava a insistir em avisar para treinar, que ia doer. Mas com vídeos daqueles como os poderíamos levar a sério? Uma coisa era certa, galhofa e boa disposição estavam garantidos, agora dores nas pernas logo se via.
O único dia a meio da semana que podia dormir até mais tarde, e para não contrariar a tendência, lá tive que levantar cedo, juntar-me a dois colegas, rumar em direcção a Canedo, levantar dorsais, prepararmo-nos para às 9h estar no local da partida para o arranque.
A viagem foi curta e rápida, o levantamento dos dorsais igualmente rápidos, a preparação, bem essa posso dizer que o tempo que demoro a equipar é semelhante a uma rapariga na pura adolescência a preparar-se para um sábado à noite. A partida também foi num ápice, às 9h lá íamos nós, parecíamos quenianos numa prova de estrada, não fosse o arranque feito numa descida.

Créditos na foto
Cerca de 1 quilómetro em estrada sempre bem rolante, da maneira que a gente gosta, e da maneira para dispersar um pouco o pessoal, até entrar finalmente em trilhos, onde a primeira incursão seria já afunilada, existindo uma ligeira fila que mantinha um passo certo e não atrasava ninguém. Engraçado que agora pensando bem, não me recordo bem dos locais que passei nesta fase inicial. Isto porquê? Ia num ritmo bastante certo e apetecível que só atentava onde colocava os pés e por quem passava. Bastante gente conhecida, cumprimenta aqui, cumprimenta acolá, e lá se ia avançando com pernas a responder ao pedido, e respiração sempre controlada. Tudo à maneira e impecável, até estava surpreendido em como as coisas estavam a correr tão bem, mas era uma fase muito prematura para pensar o que fosse.

Primeira subida, e penso para mim, que as coisas iriam aquecer, e a minha expressão seria algo semelhante a um recém-nascido. Surpresa, fiz praticamente a correr duma ponta à outra. Alguma coisa se estava a passar e não estava a perceber. Seriam os treinos que estavam a dar resultados? Seria sol de pouca dura? Se sim ou não, vou esmiuçar este “sol”. Não sendo um percurso que tenha uma beleza rara, poderíamos aproveitar apenas em alguns locais, e a passagem por uma pequena ponte sobre o rio era o que mais realçava no meio de vegetação bem mais densa.
Este cenário foi apenas para aliviar um pouco a pressão da subida que se aproximava, e de seguida aí estava ela por estradões que nos levavam até ao primeiro abastecimento. Nada de muito técnico nem de rogar pragas a quem quer que fosse, mas o suficiente para abrandar um pouco os ânimos.
Não foram muitas, as provas de trail que participei, mas já conheço algumas e posso dizer que esta malta sabe o que faz. Abastecimentos impecáveis, e com pessoal bastante prestável e bem-disposto. O que se podia pedir mais?

Descida propicia a quedas! Créditos - Organização
 
A mítica ponte da prova! Créditos - Organização
Abastecido e recomposto, sigo viagem numa descida, e que descida. Longa bem ao jeito dos joelhos começaram a dar umas pequenas picadas. Cerca de 100 metros de desnível negativo em 1000 metros, até nova travessia pelo rio Inha, onde desta vez o atravessamos não por uma ponte, mas sim mesmo pelo leito que nos tapava até meio da canela. Não existia outra forma, e o refrescar das pernas foi uma boa sobremesa após o abastecimento, dado o calor já um pouco mais alto aquando o inicio.

Uma das travessias aquáticas. Créditos na foto
Poderíamos pensar que era uma sobremesa composta por fruta e bastantes doces, mas não. Apenas deram-nos a fruta e rapidamente serviram o café. A rápida travessia do rio e o virar da esquina, escondia a segunda subida que nos levava até à aldeia de Parada. O desnível não era muito, mas tinha uma inclinação já um pouco mais acentuada e um piso terrível para as pernas. Agora compreendia alguns atletas que conheciam a zona andarem com bastões, iriam ajudar muito naquele terreno a progredir, mas estando eu de mãos a abanar, teria que ser assim que a subia. Pedras soltas, e as únicas enterradas na terra eram lisas mesmo a pedir um pequeno deslize para um pequeno tombo. As sapatilhas aos poucos iam dando sinais que não eram indicadas para aquele piso, e começo a dar asas à minha intenção de investir num calçado novo, mas primeiro teria que sair dali. Não a correr, mas com passada controlada sem estragar o que até ali fiz sem sequer ouvir um “ai” do meu corpo como forma de avisar que estava em esforço. Já no topo, não desato a correr, apenas recupero um pouco o folego e mal vejo piso bom para correr, volto a encher os pulmões e aumento a passada para um ritmo confortável de corrida.

Pequena amostra do que aí vinha. Créditos - Organização
O confortável desvanece em pouco tempo, e a descida por um largo estradão, coloca-me a velocidades não muito normais em mim neste tipo de terrenos. Mas que podia fazer? Dizer que não a todo aquela boa sintonização do meu organismo? Claro que não.
Apenas disse não, quando me deparei com dois casos caricatos e ao mesmo tempo nada caricatos. Uma descida praticamente vertical, toda em terra solta, que o mais rápido e fácil era enrolar o corpo em forma de bola e descer aquilo. Enquanto aquela descida nos fazia alguma espécie, já me preocupava a louca subida que tínhamos pela frente. Um autêntico piso acidentado, cheio de pequenas pedras e terra solta, sobre enormes rochas lisas e escorregadias. Eles bem tinham avisado, e estavam a apontar para isto. Poderemos dizer que me encontrava no fundo de um vale que formava um “v” perfeito. Tamanha era a descida vertical que havíamos feito, como a subida que nos fazia prosseguir no nosso caminho. Acompanhava algum tempo um outro atleta que já conhecia a zona e saca dos seus bastões para a longa subida, o que eu me roí por não ter uns naquele momento. De alguma maneira teria que fazer aquilo, ali não iria ficar e foi assim que arranjei coragem e arranquei para “escalar” aquela tremenda parede armadilhada.

Uma de três! Créditos - Organização
Escalar é praticamente o termo, houve partes que tive que colocar as mãos no chão, inclusive uma que me voltou a dar asas à imaginação para novas sapatilhas, quando as actuais me deslizam sobre a rocha, e faz com que comece a descer contra a minha vontade. Numa rápida investida do atleta que levava os bastões, agarrou-me e evitou uma queda provavelmente algo aparatosa. Agradecimentos feito mais que uma vez, pois acabara de salvar uns valentes arranhões à minha pele, e prováveis ossos partidos, e volto ao alpinismo, mas já com mais cuidado. Os pequenos planos que existiam a meio eram uma forma de alívio para os quadríceps, que gritaram ao fim de 3 muros idênticos. Como se não fosse o suficiente subir cerca de 100 metros em 400 metros, no final de toda aquela ascensão, apenas virávamos à direita e a subida prolongava-se sem fim à vista, mas desta vez em piso almofadado a comparar com o que acabávamos de atravessar.

Agora compreendia o porquê de todos os avisos para treinar, que ia doer, pensei que o pior estava feito apenas teria que recuperar de toda aquela suadela que me fez lembrar a “Besta”, e seguir caminho. Aos poucos fui recuperando e voltando a dar um ar de atleta, mas que colocava de lado ao fim de alguns metros percorridos. Estradões largos que nos encaminhavam para o segundo abastecimento mesmo no topo daquele enorme monte. Quanto mais subíamos, menos vegetação nos rodeava devido aos incêndios daquela zona, que ainda se conseguia identificar por enormes zonas pretas sem qualquer tipo de árvore. Contudo, aquele local proporcionou uma das mais bonitas paisagens de toda a prova, onde se podia ver os restantes montes e campos que ali existiam em toda a volta. Deu um pouco para desligar a ficha da valente dor de pernas que tinha ganho, e já aguardava por encontrar um valente manjar mesmo lá no cimo.
O problema é que ninguém me avisou, (nem tinham que avisar) que para lá chegar teríamos uma recordação das anteriores paredes. Certamente ninguém ainda se teria esquecido, mas para o caso de alguém sofrer de Alzheimer, o concurso para alpinismo estava de novo aberto. O que vale é que tinham um bom abastecimento de novo, e uns gajos porreiros que me ajudaram a encher as garrafas que já se encontravam coladas de já nem ar existir dentro delas.
Ali era a marca que indicava a divisão de 4 concelhos, quase nem olhei para ela, queria era sair dali antes que se lembrassem de colocar de novo alguma subida à minha frente. O conhecedor daquela zona que até ali me acompanhou dizia que o pior estava feito, apenas teríamos uma subida semelhante, mas era mais para a frente.

A tragédia dos incêndios. Créditos - Organização
Se há coisa que dou preferência entre subir ou descer, é a subida. Quer dizer, se for uma descida lisa sem nada a estorvar e não muito comprida, aceito-a de bom grado, mas com pedra escorregadia e pedra solta, não obrigado. E com isto quero dizer que o senhor dos bastões esqueceu de avisar, que iriamos ter uma descida idêntica à subida. Não que tivesse alguma obrigação em o fazer, mas já me ia preparando psicologicamente. Mas até lá chegar ainda tinha alguns quilómetros pela frente, em longos estradões bem ao jeito de rolar, colocar um sorriso rasgado na cara e picar os joelhos. Mas assim que a vejo foi com um fechar de boca e um engolir em seco que vislumbrei aquela descida. A confiança com as sapatilhas já não estava no seu auge, e a progressão foi feita sempre com precaução até chegar a terreno plano e seguro. Basicamente parecia um individuo que tinha medo de andar de avião, e quando pisou terra firme só não beijou o chão por vergonha.

Agora seria a minha vez de me vingar, ou pelo menos pensei eu. Assim que volto a piso firme e olho em redor, não vejo por onde poderíamos subir, e tudo indicava para um bom pedaço de terreno plano para dar uso às pernas. Estava recuperado e pronto para avançar, mas tinham que nos pregar alguma partida. Assim que penso que poderia recuperar algum tempo perdido na descida, qual não é o meu espanto que temos um trajecto praticamente inundado. Ora aparecia lama que acabava por enterrar as sapatilhas tornando-as pesadas, ou aparecia uma valente poça de água, que só não criava crocodilos lá dentro por não ter demasiada profundidade.
Por muito que quisesse lavar as sapatilhas de toda a lama colectada logo ali, a água era castanha ao ponto de dar um pouco mais de sujidade. Não que me preocupasse, pois sou daqueles que lavar as sapatilhas que uso para o monte é feita na travessia de rios. E por falar nisso, ainda nos deram essa grande oportunidade.

Créditos - Organização
Já tinha facturado 23 KM, e o sol já estava bem alto mesmo à maneira para tostar, necessitava de uma lavagem de sapatilhas e de um valente mergulho. A lavagem do calçado foi feita em grande estilo, já que a travessia do rio uma vez mais era em modo aventureiro, refrescando as pernas com água a chegar perto do joelho. Já o mergulho esse, fica para outra altura. Infelizmente a cor azul que brilhava dos meus pés acabou por se tornar em castanho assim que volto a correr, levantando alguma terra que facilmente colava às sapatilhas. Que se lixe isto!
Seguimos directos a um pequeno troço de estrada que nos levava até ao último abastecimento mesmo ao lado do um longo rio Inha. O desgaste já era um pouco evidente, mas ainda me sentia com pernas para andar, e a confiança para fazer bom tempo estava em cima. Alimentei-me, enchi novamente as garrafas que já se encontravam quase vazias dado o tremendo calor, e siga em frente.

Rio Inha. Créditos - Organização
Estava a ser um dia perfeito, e uma prova praticamente perfeita, mas em alguma altura teria que cometer um erro, e foi ali. Não por não ter comido uma das sandes de presunto que tinha no abastecimento e um cálice de vinho do Porto, mas sim por ter comido algo que sabia que o meu estomago iria aceitar sem queixas, mas que teria de lhe dar tempo para digerir. Pois, mas não dei. Assim que termino e agradeço uma vez mais aos prestáveis voluntários, começo a correr como se numa prova de estrada estivesse, nem dei tempo ao estômago para dar as boas vindas aos alimentos, nem agradecer a minha generosa bondade. Mais tarde acabou por me dar a resposta a todo aquela agitação, e não foi nada generosa. Um mau estar, e alguma má disposição deitaram-me abaixo e não estava a conseguir recuperar. Lembram-se do individuo que falou da subida que ainda teríamos por fazer? Bem ali estava ela! O meu pensamento acabou por sair pela boca, e já derrotado apenas disse “outra vez não!”.

Talvez esta subida tenha sido o melhor que me aconteceu naquele momento. Não que não me proporcionasse dores de pernas, pois estava a abusar da boa disposição que tinham naquela manhã, mas lá se aguentaram, mas sim por manter uma passada mais lenta, e ajudar a acalmar o estomago que teimava em revoltar-se contra mim. Ao fim de alguns minutos lá me fui começando a sentir melhor, mas ainda não era o suficiente para soltar as pernas. Vim praticamente todo o caminho acompanhado por alguns atletas, mas o cenário estava a mudar de figura. Com a travessia de um longo caminho empedrado percorrido por um pequeno caudal de água que regava algumas ervas que cresciam entre as pedras, começo a ficar sozinho. E assim que chego a uma zona de mato bem aberto via bem ao longe já numa longa subida quem me precedia, mas que rapidamente desaparecia aquando a viragem numa longa curva. Olhando para trás não conseguia ver ninguém, estando ali naquele local completamente sozinho. O cenário daquele um mato completamente limpo onde se via a terra castanha a virar um pouco para o vermelho e límpida, e várias árvores dispersas foi o meu ponto de viragem e da mudança de cara de enterro que tinha.

Sandes de presunto e vinho do porto. Créditos - Organização
Já faltavam poucos quilómetros para terminar, e após renascer, volto finalmente a colocar um andamento semelhante à corrida, mas desta vez sem parar ao fim de alguns metros.
O som da música e do speaker começava a ser audível, o que significava estar mesmo perto do final. Não dei a parte fraca e optei por dar corda às pernas para terminar em beleza. Logo após a travessia de um pequeno caminho, estamos de volta ao local de partida que se encontrava mesmo à frente do nosso nariz. Mas com este pessoal nada podia ser mais enganador e nada é certo. Começamos a descer, e teríamos que terminar a subir, obrigando-nos a descer uma escadaria paralela à subida da meta, e subir até ao fim. Enfim, “peanuts” ao fim de 30 KM, ou será que não?

Consegui gerir e aguentar bem até aos 25 KM, sem dar qualquer sinal de mazela, ou queixa que me derrotasse. Um pequeno erro no final, obrigou a lutar para fazer os últimos quilómetros, mas felizmente tudo se compôs e consegui terminar sem grandes queixas.
E por falar em queixas, também não as posso fazer com uma organização destas. Estiveram impecáveis, garantindo a boa disposição sempre que víamos ou cruzamos com alguém, nem que fosse um simples “força aí”, era garantido seja para o mais veloz como para o mais lento. Ou pelo menos foi essa a impressão que fiquei.
Os abastecimentos com uma qualidade fantástica e com pessoal bem prestável sempre que era necessária alguma coisa.
As marcações, não que tivessem mal marcadas, mas por incluir fitas de cores diferentes para as diversas distâncias. Não que fosse daltônico, ou esquecesse da cor que tinha que seguir, mas quando cruzávamos com as outras distâncias, existia várias fitas, e por vezes não coincidia estarem todas juntas, o que causou algumas dúvidas ao pensar que teria passado algum corte. Nada de grave, mas que é fácil de resolver, com umas setas a indicar o desvio dos atletas.
E por fim, falar das maravilhosas sandes de presunto com ovo estrelado e mini, que no fim daquela distância, foi um autêntico manjar de deuses. Foi um forrobodó!

Medalha finisher interessante. Créditos na foto
Para o ano apenas sugiro colocar duas sandes e duas minis à disposição por atleta, fica a dica! EHEH.

Deliciosas! Créditos - Organização