quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

São Silvestre de Ovar - Uma delicia


Desde a minha primeira corrida, não há muitos anos, que recordo bem de que forma atravessei pela primeira vez a meta após 10 quilómetros.
Na altura, corria há poucos meses, e os ritmos, … bem esses eram devagar, devagarinho. Como tudo na vida, tudo tem um início. E foi aí que se iniciou este bichinho pela corrida.
Aos poucos, e naturalmente fui evoluindo, a coisa foi melhorando e os minutos a baixar, até chegar a um patamar em que os tempos finais rondavam os 41/42 minutos. Foi aí que me desafiei a conseguir correr uma prova abaixo dos 40 minutos. Sabia que naquela altura ia exigir muito de mim, sendo uma fase inicial. Mas não tinha como uma data limite para o fazer, iria esforçar-me para tal, mas sem pressas.
Contratempos, e a participação em cada vez mais provas longas, e de trail, colocaram este objectivo um pouco de parte. Sabia que eventualmente iria voltar às distâncias curtas, e que aí iria tentar novamente a proeza.

As “São Silvestres” são uma delícia para se conseguir esse feito. O convívio, e a forte presença de apoiantes pelas ruas ajudam, e era a minha oportunidade de terminar o ano em beleza.
Escolhi a de Ovar, na fresca noite de Dezembro para tentar a minha sorte.
Pelo que havia feito nos últimos treinos estava confiante para ser finalmente um “sub 40”, mas naquela noite de Sábado não me sentia capaz de o fazer, não sabia o quê, nem o porquê, mas estava reticente, e não quis elevar a fasquia. Optei por apontar para o tempo final de 40 minutos. Já seria bom, pelo menos retirava 1 minuto ao meu recorde pessoal.

Lá no fundo tinha uma pequena esperança que tudo ia correr bem, e que ia conseguir um brilharete, e segui à risca a estratégia que já tinha delineado. Aquecimento q.b., e tentar posicionar-me o mais à frente na linha de partida.
O aquecimento foi mais que bom, estava quente o suficiente para poder arrancar. E a faltar ainda 10/15 minutos para o arranque, deparo-me com uma quantidade enorme de atletas já inseridos bem atrás do pórtico. Tento “furar” o máximo que consigo, até não conseguir mais, e vejo a coisa a andar para trás.
Aguardo pela contagem enquanto arrefeço e vou trocando palavras com pessoal.
Aproximava-se a hora, e finalmente podemos chegar à frente após entrada do pessoal de elite. Estava relativamente mais perto do pórtico, mas a confusão era tanta, que parecíamos sardinhas enlatadas.

Foto Organização
À hora arrancamos, e o que suspeitava confirmou-se. Grande parte dos atletas que ali estavam à minha frente são daquele tipo de atletas que mais me enerva em provas. Colocam-se na frente apenas para atrasar quem quer tentar alguma coisa. Não que fosse o meu caso, mas tentava retirar pelo menos um minuto ao meu melhor tempo. Enfim.
Queria tentar manter um ritmo entre os 4.10, 4 min/KM durante o primeiro quilómetro. E só com alguma destreza o consegui. Eram ritmos inconstantes, um para e arranca infernal, e muita confusão. Tentava fugir ao máximo daquela confusão, mas com o passar dos primeiros 1000 metros, o relógio apontava um ritmo médio de 4 min/KM.
Nem tudo era mau, pensei, agora seria manter e consequentemente aumentar.

Uma das funções que gosto de utilizar no meu relógio, é a previsão de tempo final de uma determinada distância consoante o ritmo que vou. Foi o meu apoio desde início.
Logo a princípio apontava para uns 42 minutos, o que achei normal, dado a velocidade que até ali mantive. Não estava preocupado, pois estava a sentir-me solto, e sem cansaço ou ofegante devido aos ritmos inconstantes.
Algumas curvas e contracurvas até entrar numa recta onde a estrada era mais larga, e se tomava sentido à dimensão de quantidade de atletas que ali estavam. O ritmo havia melhorado, e já estava abaixo dos 4 minutos, o que era fantástico, mas achei prematuro naquela fase.
Aproveitava a “boleia” de alguns que me ultrapassavam para seguir atrás deles, até finalmente estar mais disperso da multidão.
Já levava cerca de 3 quilómetros quando já vinha a completar um pequeno grupo de 4 elementos. Eramos 4 atletas, sendo uma feminina, todos eles pareciam estar a fazer de lebre, e ela a tentar a sorte dela. Após me sentir bem naquele ritmo mais forte que adoptei deles, fui avançando deixando para trás um dos atletas, e colocando-se ao meu lado um outro, a rapariga percebeu a ideia, e colocou-se mesmo logo atrás de nós.
Era a descer e aí todos os santos ajudam, tanto consegui manter a velocidade, como fui aumentando e acabei por me afastar deles, deixando-os para trás.
Era um percurso perfeito, sem nos apercebermos bem das subidas, por ter um declive tão reduzido, e por conseguirmos “deslizar” nas descidas.

Era altura de passagem pela zona da partida (e meta) novamente, e aos poucos que nos vamos aproximando do centro de Ovar, o apoio vai aumentando, cruzando com algumas pessoas aqui e ali.
Olhava para o relógio e já apontava para uns 39 minutos de tempo final, com tendência a baixar mais. Estava a achar aquilo estranho, mas estava com pernas, caixa, e força para mais. Pensei que tivesse abusado na primeira parte, e iria sofrer dali para a frente, mas o meu corpo ia-me dizendo o contrário.
Estava com 5 quilómetros, e ali estava o abastecimento de água que evito sempre deixar para trás. Desta vez, ia ser diferente, via os voluntários a estender o braço do meu lado esquerdo, e alguns atletas na direcção deles. Afasto-me e mantenho o ritmo, dali para a frente seria eu e o meu guia, vulgarmente conhecido como relógio.

Havia partes que coincidiam com a meia maratona de Ovar, que já conhecia, e sabia se podia abusar, e nestes últimos 5 quilómetros, havia alguns desses segmentos.
Contudo eram os quilómetros mais mórbidos da prova. Tanto pelas ruas vazias, como pela escuridão tornando o percurso perigoso. Foram vários os passos que dei sem perceber onde colocava o pé, tentava sempre seguir quem ia à frente.
Consultava o relógio novamente e o tempo final, apontava para uns 38 minutos e tal, pensei para comigo que isto iria ser melhor que um brilharete, alguma coisa não estava bem, mas o que era certo é que os ritmos estavam sempre certos desde o arranque, e tudo batia certo.
Sentia que ia ser aquele dia, sentia que iria ser ali que ia finalmente ser um sub 40.

Já algum tempo que havia sido ultrapassado por um conterrâneo, mas sempre se manteve a uns 20/30 metros à minha frente. Até ao quilómetro 7, o meu objectivo foi evitar que ele fugisse de vista, agora era tentar alcança-lo, para evitar perda de ritmo. Aumento o ritmo, e vejo a placa do quilometro 8, ultrapasso numa ligeira subida, e entro em terreno plano.
Era altura de puxar pelas pernas, não que não o tivesse feito até ali, mas dali para a frente seria um contrarrelógio.
O relógio continuava a apontar para os 38 minutos e alguns segundos, queria tentar tirar o máximo possível, e apertei de maneira a aguentar aqueles 2 últimos quilómetros, com o mesmo ritmo de princípio a fim.

As palmas já se iam ouvindo, os festejos e o speaker. Sentia-me concretizado, a multidão em redor aplaudia, não para mim directamente, mas para os muitos que ali passavam, mas fui egoísta, corria como se aqueles aplausos fossem só para mim. Aproveitava também as descidas para acelerar mais um pouco. Era os últimos 100 metros, e seria a subir até à meta. Subida quase sem declive de início, mais acentuada no final, mas sem dar para esforçar os músculos. Aí estava, o tão esperado sub 40. Tempo líquido de 37:55.

Infelizmente não posso afirmar ser o meu tempo final dos 10 quilómetros, por a prova ter uns 300 metros a menos. Fiquei um pouco triste, mas sabia que aqueles 300 metros iriam ser feitos certamente sem problema algum, colocando o meu tempo nos 38 minutos e alguns segundos.

A noite fria ajudou a que não quebrasse, e a corrente humana que havia a apoiar junto à meta foram uma grande ajuda. Apenas um reparo para validarem a certeza da distância final, nas zonas escuras, e no abastecimento, que apesar de não o usar vi que tinha apenas uma pequena bancada, que não daria para dispersar a maioria do pessoal quando começassem a chegar aos grupos.
São pequenos pormenores que podem facilmente serem rectificados, e ter uma prova de excelência.

O que ficou mesmo na memória, foi um final de ano com objectivo realizado. E um belo pão de ló de Ovar, que é uma delícia.

Tirada do Google. 


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Pisão Extreme - Um empeno fácil


É dura, muito dura, uma trituradora de atletas incrível.
O Pisão Extreme comprometeu-se a dar um empeno, e cumpriu em pleno. Felizmente tive a consciência e juízo de me inscrever apenas nos 20 quilómetros.
Chamavam-lhe “Pisão Adventure”, e de facto foi uma aventura e peras.
No fundo de um vale, a única vista que tínhamos por entre aquelas árvores eram uns picos altíssimos, onde pensaríamos se realmente a prova nos iria lá levar. Tendo em conta o grande desnível da prova, era um dos possíveis cenários.
 
Créditos: Organização

A partida era num pequeno parque, e o ambiente era engraçado, por não se saber o que realmente dali vinha, com tanto desnível, e quando a esmola é muita o pobre desconfia.
À contagem decrescente do speaker “Joca”, lá fomos nós na descida mais rolante de toda a prova nuns cerca de 200 metros até entrar rapidamente num trilho encosta acima.
Não fizeram por menos, se é para dar nas pernas, que comecem logo a subir. Num para e arranca, tamanha era a confusão que não se conseguia sair dali sem se pedir licença para ultrapassar.
Segundo o gráfico, eram subidas loucas e descidas vertiginosas, mas nem isso impediu que muitos, eu inclusive, de não poupar energias e seguir a correr. De certa maneira até ajudou a aquecer, e a afastar da confusão normal.

A subida parecia não ter fim, e assim que a terminávamos não existia espaço para descansar, a descida estava logo ali, por um estradão bastante rolante, mas que não me dei ao luxo de o desfrutar como queria. Já tinha abusado na subida, estava na altura de ser eu a tomar as rédeas e ajuizar os próximos quilómetros.
O final da descida foi como um pequeno engenho criado pela organização para verificar a nossa técnica para o que ali vinha. Numa pequena encosta, por entre eucaliptos, zagueavamos de um lado para o outro tendo como apoio as árvores, para não cair, já que o piso estava todo remexido devido à passagem já de vários atletas. Um pé em falso e era queda certa. Muitas vezes apenas colocava os pés no chão e deslizava nas descidas, como se estivesse a fazer ski.

Os picos bem lá no alto
Um pequeno riacho ditava o fim do escorrega e a repentina subida.
Uma vez mais, não houve espaço para recompor, nem para descanso. Parar ali, simplesmente não dava, obrigava todos os que me precediam a uma manobra mais brusca para puderem me passar. Eram um terreno rochoso, e o trilho não existia, teríamos que improvisar e saltitar entre as pedras. Houve alturas em que um caminho parecia existir, mas era apenas por breves momentos.
Olhando em frente vou colocando o meu olhar no alto daqueles picos, que afinal se confirmava os que havia avistado no local da partida. A passagem seria por ali, naquele pico rochoso, e até lá chegar ainda tenho muito que galgar. O terreno não permite grandes correrias, excepto quando nos afastamos um pouco das habituais pedras.
Estava ali, a poucos metros, o ponto mais alto, agora seria descer um pouco, para mais à frente voltar a subir. Era o cenário que estava estampado na minha inocente mente, e que veio a provar-se o contrário.
Aquele monte de rochas, apenas ocultava o que ali vinha.
Vínhamos de um ponto de vista difícil de prever o que realmente existia ali atrás, e assim que a contornamos, surge a continuação de mais rochas, mais trilhos inexistentes, apenas tendo como referência a fita seguinte, o trilho seriamos nós a fazer e antever para evitar grandes esforços.

Seria assim até pisar o estradão no cume da serra da Arada.
O primeiro tormento havia terminado, estamos no alto da montanha, tudo o que iriamos apanhar a partir dali seria algo natural, algo que só mesmo as entranhas daquelas montanhas deixam existir e crescer de forma natural.
Não estava sozinho, tínhamos juntado um pequeno grupo de 5 elementos. O Fábio já havia ali passado, a Márcia estava a pisar os meus calcanhares desde o início, e o Roni e Paulo vinham um pouco mais atrás.
Seguia junto com a Márcia e estávamos com uma boa passada nas subidas, e menos boa nas descidas.
Isto iria se confirmar novamente, mal se retoma a descida, uma vez mais sem qualquer trilho, apenas uma vegetação rasteira que esconde alguns buracos da terra e pedras sobressaídas naquela encosta. A descida era louca, com muita pedra solta até atravessarmos estradão que nos levava ao trilho da garra.

Créditos: Organização
O início era idêntico ao que acabávamos de fazer, só que piorava aos poucos. Às pedras soltas, juntava-se pedras aguçadas, que parecem espetos saídos do chão. Evitava a todo o custo uma entorse, e estava a conseguir.
Estava à espera dos trilhos técnicos já há muito que tanto me referiram, e estavam ali, a descida era fantástica, mas perigosa. Via-se todo o caminho bem longe sobre aquelas encostas, uma imensidão autêntica.
Aos poucos o terreno suavizou e finalmente havia um pequeno trilho para poder rolar. Esqueci toda a gestão, e comecei a correr desenfreadamente por aquele single track.
As coisas voltavam a complicar já no final, passando de uma descida mais ou menos rolante, para um precipício em terra batida. Era calcular todos os passos até ao fundo e atravessar o rio.

Estávamos a pouco tempo de chegar ao primeiro abastecimento na aldeia de Gourim, e nem o caminho até lá era facilitado.
Optei por aguardar uns minutos, e esperar pela Márcia que tinha ficado ligeiramente para trás.
À saída do abastecimento, iniciava-se mais uma nova escalada. De início eramos obrigados a usar os 4 membros, num caminho improvisado pela encosta rochosa acima, até entrar em mais uma encosta rochosa. Dava a sensação de ser uma cascata já seca, mas que nos deixava a suar, e os músculos duros como uma pedra, de tanto massacre em declive, mas ainda estavam capazes de continuar. Cerrava os dentes quando se pronunciavam, respirava fundo e continuava seguro que conseguia chegar ao topo.

Já no alto, foi a primeira vez que não subiríamos até ao alto, apenas a contornávamos na parte interior, mas nem assim seria um trabalho fácil, com o terreno completamente acidentado. As fitas distantes indicavam apenas o próximo ponto de referência, e entre pequenas subidas e descidas fomos avançando para a última subida implacável.

Créditos: Organização
Os rios que fomos atravessando já me atacavam o psicológico. Sabia que de imediato alguma calamidade ia aparecer, e vinha-se a confirmar.
Provavelmente a subida mais dura e violenta da distância. O desnível andava sempre entre os 30 e 40% de inclinação, e para perturbação mental, conseguiríamos sempre ter o ponto mais alto como referência. Sem contrariar o que até ali foi feito, o trilho não existia, as pedras estavam sempre no caminho, e a vegetação escondia muitas vezes o piso onde poderíamos colocar o pé.
A subida era louca, e gozona, com cerca de 1 quilómetro de distância, e com 3 ou 4 patamares distribuídos pelo caminho. Sempre pensei que em algum destes patamares poderíamos terminar, e deslizar por aquele estradão, mas não, seria para cima o caminho.
Já algum tempo que uma prova não conseguia puxar por mim e insultar, esta conseguiu fazê-lo.
Cerrei os dentes até ao cimo, usei todos os músculos que as coxas me podem oferecer, e mesmo assim conseguiu insultos meus. Estava feito.

Estava aliviado, por saber que já não existia subidas monstruosas, nem nada que se pareça, seria agora a última descida até aos 15 quilómetros, e finalmente um terreno mais apetecível para poder rolar.
Não havia maneira mais fácil de começar a descer. Adivinhem? Pois é, sem trilho, pedra solta, …
Estava numa altura de me auto avaliar, e ver como e o que necessitava para continuar, e já quando a descida começa a dar-nos um terreno mais confortável, surgem os primeiros sintomas que queria evitar. Aquelas pedras que levo nas pernas, começam a dar sinais de queda iminente, e se ali o acontecesse seria uma derrocada enorme. Estava com receio de ficar no estado que fiquei em Manhouce, e seria altura de prevenir o mais possível.

Créditos na foto
Reforçava com alguma alimentação e cápsulas de sal que levava comigo, bebia água, mas estava não queria esvaziar na totalidade as garrafas. Teria que gerir de outra forma.
Inevitavelmente as flasks secaram, e aguardava o abastecimento dos 15 quilómetros.
Voltei a estar em autossuficiência, e seria altura de retomar ao caminho. Bem antes de arrancarmos, um dos voluntários indica-nos que a Márcia estava na terceira posição da geral feminina, estando a quarta posicionada mesmo a chegar ali.
Foi como uma energia extra para ela, e um novo objectivo.
As cãibras, não me tinham atingido, mas não me largavam de maneira nenhuma, e disse-lhe para avançar e não esperar por mim. Ainda consegui correr um pouco, mas foi sol de pouca dura. Enquanto ela avançava, mantinha-me atento à quarta posicionada. Vinha a pouco mais que uns 10 metros atrás de mim, mas parecia em dificuldades.

Tentei alguma vezes voltar a correr, mas não estava a conseguir. Os estradões largos, não me davam energia psicológica suficiente para voltar a correr. Vou vendo a Márcia já distante, mas com algumas paragens.
Volto a tentar uma vez mais, e parece que é agora. As pernas estão ligeiramente mais soltas, e consigo colocar ritmos bons, até alcançar a Márcia.
Digo-lhe que estou recuperado, enquanto ela me diz que está a quebrar, mas que já que está ali iria tentar o pódio.
Sinto a pressão dos músculos a aliviar, e se o piso rolante se mantivesse, não teria mais problemas.
Mas nem tudo seria bom. Quando vejo as fitas a indicar um caminho por entre umas rochas posicionadas umas em cima das outras. Ali parei, coloquei as mãos sobre os joelhos e chamei nomes. Não sei a quem, nem sem bem porquê, mas não queria perder as pernas que havia recuperado. Foi uma curta passagem, mas técnica o suficiente para voltar a colocar pedras nas coxas.

O speaker já se ouve e seria rolar até ao final. Estava feito.
Mesmo junto à meta, estava o Fábio à nossa espera, que ainda fez um pequeno trote connosco a levar-nos até à meta.

Implacável, é um bom sinónimo para esta prova. Não houve tempo para descanso, nem sequer para respirar fundo. É lindíssima, mas agressiva ao mesmo tempo, consegue dar-nos paisagens fantásticas, enquanto nos atira pedras para as pernas. A organização está de parabéns, achando que para bem, poderiam retocar alguns pormenores que metem esta prova na perfeição.

“Um empeno fácil”, apelido que faz jus ao Pisão Extreme.

O nascer do sol a caminho de um empeno fácil


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Maratona do Porto - A conquista


Ainda tenho tudo tão vivo dentro da minha cabeça da primeira vez que participei na Maratona do Porto.
Logo após a finalizar, não restava dúvidas, teria que a repetir. E repeti.
Tinha que ser diferente, algo que ainda não tinha testado nas duas maratonas que fiz. Queria tentar fazer o mínimo tempo possível, bater o meu recorde, o que vendo bem os tempos anteriores, não era difícil.
A primeira maratona serviu um pouco para perceber como era o impacto, e de que maneira reagia à distância.
A segunda, apesar de inicialmente também querer baixar o meu tempo, acabei por abdicar desse propósito para ajudar o meu primo a terminar.
Desta vez seria eu e o cronómetro, a apontar entre as 3h30 e 3h45. Era esse o meu foco, tendo como base a preparação que fiz.

Além de mim, juntaram-se mais 3 amigos da equipa (Vale dos Duros). Para eles a estreia na distância, e empolgados pela prova que era. Estávamos animados e com consciência do que teríamos que fazer para tentar chegar ao final.

A equipa Vale dos Duros
O tempo que se previa para aquela manhã, era a última coisa que queria, mas não facilitou. Não que não goste de correr à chuva, mas sabia que iria afastar muita gente das ruas, e esse é a nossa principal fonte de energia e o motivo pela qual esta prova se torna tão diferente das outras. Por outro lado, o tempo fresco, faz com que a corrida “pareça” mais fácil, não tendo o calor do sol sempre a insistir em aquecer.
Com ou sem chuva, iria lá estar atrás do pórtico da partida. Cheguei quase em cima da hora, mas não deu para melhor. O estacionamento distante da partida, fez com que o percurso do carro até à partida fosse já um aquecimento. Ainda não chovia, mas o tempo estava fresco, e assim foi a maneira de não sentir aquela brisa matinal de Outono.

Conseguimos posicionar o melhor possível nos blocos de partida. Sabíamos à partida que não iria ser como pretendíamos, mas para a distância que é, temos mais que tempo para recuperar tempo.

Partida - Créditos Organização


Quilómetro 0 a 12

Aquela ansiedade para arrancar ainda não se tinha manifestado, mas pouco antes de partir e de se dar inicio aos 42 quilómetros, ali estava aquele “nervosinho” miúdo, que acaba por desaparecer assim que se atravessa o pórtico. A chuva, essa apareceu poucos minutos depois da partida, por vezes apenas em pequenas gotas, outras, mais intensas.
Era impossível, não dava de maneira nenhuma colocar um ritmo certo, não se consegue avançar sem ter que abrandar ou mesmo parar, devido à imensidão do pelotão.
Quando a estrada alargava, ou se descia, era mais fácil de impor algum ritmo mais rápido, mas não durava muito. A ida ao porto de Leixões foi mais um dos casos de congestionamento, não que me importasse, por saber que ainda tinha muito tempo para recuperar algum tempo perdido, apenas porque não conseguia colocar um ritmo certo.
Nova passagem pelo local de partida, e há a separação da prova dos 15 quilómetros, que ajuda a fluir um pouco mais.

A chegar aos 12 KM - Créditos Organização
Quilómetro 12 ao 21

E começou. Nesta maratona, o quilómetro 12 é onde se inicia verdadeiramente a maratona do Porto. Vejamos, é quando nos separamos da prova de 15KM, quando o apoio externo está mais disperso, deixamos de cruzar pelo menos nesta fase inicial com os restantes participantes devido aos retornos, vamos ter a parte mais bonita do percurso, e temos um longo trajecto pela frente para ali voltar no final de tudo.
Segui desde o tiro de partida com o Fábio. Já corremos algum tempo juntos para perceber qual o ritmo ideal e que sabíamos que iríamos aguentar. Ele conseguia mais, mas como era a primeira maratona deixou-se ficar mais resguardado para perceber até onde pode ir.
Trocávamos de posições constantemente, ora ele a puxar, ora eu puxava, sem grandes oscilações de ritmos nem grandes desgastes. Chegávamos ao quilómetro 19 e os primeiros já voltavam em direcção à meta, brincávamos com a situação.
Fomos ultrapassando muita gente, alguns conhecidos, que aproveitávamos para cumprimentar, outros que não conhecíamos, mas que por vezes em tom de brincadeira davam o apoio.
É aqui também, no quilómetro 20, que se mostra realmente o valor desta prova, com a Ribeira cheia de gente, e a subida para o tabuleiro inferior da Ponte D. Luís repleta de gente. Mesmo na chuva, ali estavam eles a bater palmas, e a gritar por nós, sem lhes pedirmos nada, mas que sabe bem, isso sabe.

Quilómetro 21 ao 30

Estava ultrapassada a meia maratona, e as coisas estavam a fluir bem. Não havia preocupações com ritmos, pois estávamos bem enquadrados, não havia fadiga, apenas as dores normais de quem já leva alguns quilómetros nas pernas.
Não tenho nada contra Gaia, nem nada que se pareça, mas esta travessia da ponte para o lado de Gaia é um pouco de massacre psicológico. Temos que concordar que os retornos são o calcanhar de aquiles de qualquer prova, não que aleijem, mas que dá uma dor no psicológico isso dá.
Novamente a chuva começa a cair, umas vezes mais forte, outras mais tímida, o que ajudava a manter as pernas frescas, e o corpo não ficava tão quente.
Os paralelos, afastavam muitos para os passeios, desta vez não quis segui-los como o fiz no ano passado. Mantive-me pelo caminho original, com o sofrimento que o real percurso nos dará até ao final.
Ia-me distraindo a ver quem passava, a multidão que ainda ali vinha era imensa, e era uma boa maneira de abstrair da corrida.

Chegava novamente à ponte Dom Luís, e o ambiente de festa mantinha-se debaixo da chuva e vento. Era no meio deles que as palmas, marcavam o nosso ritmo, foram fantásticos.
Era o regresso ao Porto, e a viragem em direcção à ponte do Freixo, para a fase que para mim, é a mais dolorosa psicologicamente. O forte vento e a chuva, finalmente atenuavam, e ali estava a placa dos 30 quilómetros.

A entrar nos 30 KM - Créditos Organização
Quilómetro 30 ao 40

A indicação dos 30 quilómetros tem a meu ver um ponto de viragem grande na maratona. Talvez por na minha cabeça estar a hipótese do famoso muro dos 30 quilómetros que os entendidos afirmam existir, e que já o senti.
Talvez por a minha preparação, não ter sido a melhor para aguentar os 42 quilómetros.
Ora mesmo estando fisicamente preparado, o que era uma incógnita, e psicologicamente preparado e capaz para concluir a prova, estava sempre de pé atrás para a mínima possibilidade de virar tudo ao contrário.
Comentava com o Fábio que a partir dali muita coisa poderia acontecer, ao mesmo tempo que me distraia a ver ainda quem nos precedia. Era assim que nos abstraiamos, mesmo com já tantos quilómetros inseridos nas pernas.

Não descuidei nenhum ponto de abastecimento, tentei sempre hidratar e alimentar com qualquer coisa para dar alguma energia, e conforto ao estômago.
Era a última passagem mesmo junto à ponte, e mesmo pelo meio de toda aquela gente fantástica que fizeram questão de ali estar.
O túnel era também palco de espectáculo, com imagens do recente recorde da maratona, e o barulho de algumas pessoas que se protegiam da chuva, mas continuavam a dar-nos ânimo.
Estava convicto que as coisas estavam a correr na perfeição. E estavam, as pernas ainda estavam soltas, na minha cabeça já imaginava o cruzar da meta com novo recorde pessoal, estava tudo a correr bem.
Era o regresso onde tudo começou, e pelo mesmo caminho que já havia percorrido. A grande vantagem era ser tudo bem mais plano, e ter algumas descidas.
O ritmo automaticamente aumentou, a cadência estava mais forte, e isso notava-se bem nas inúmeras ultrapassagens que estávamos a fazer. De vez em quando olhava para o relógio, e comentava com o Fábio os ritmos que íamos, eram ritmos improváveis para aquela altura, mas estávamos a sentir bem e ainda havia pernas para isso.
O terreno aplanou, os ritmos baixaram ligeiramente, continuávamos certinhos, e nem a chuva, essa que voltara para nos acompanhar mais um bocado, nos abrandava.
Chegava à subida em que virávamos as costas à foz do Douro, novamente alguns paralelos, que dificultavam e massacravam mais os pés.

Só nos restava a longa marginal, e estaríamos finalmente junto à meta, onde qualquer dor é insignificante. Contudo, ainda faltava até lá chegar, e as coisas quiseram começar a mudar de rumo. Estava a precisar de atingir os 40 quilómetros para chegar ao abastecimento. Necessitava de água, e de comer alguma coisa, mínima que fosse. As pernas já não estavam soltas, ficavam pesadas e presas, na minha cabeça já pairava a ideia de começar a caminhar, tudo a indicar o início da quebra. Não queria morrer na praia, queria terminar a prova sem paragens, tinha que aguentar aquele sofrimento, e chegar ao abastecimento, já faltava pouco.

Quilómetro 40 ao 42

O forte vento não ajudava, e assim que vejo o abastecimento, logo após a placa dos 40, pensava que já me havia safado.
Peguei numa água e banana, e aqui vamos nós. Psicologicamente estava recuperado assim que peguei no meu kit de sobrevivência, e já conseguia ver a rotunda do Castelo do Queijo, onde chegava aos 41 quilómetros.
O ritmo voltou, estava recuperado de uma curta quebra que me estava a querer deixar arrumado. Aqui não há maneira de distrair, não há ninguém que venha em sentido contrário, pouca gente na rua a apoiar, pelo temporal que teimava em não parar, e os olhos estavam postos já na meta. Vou comentando com o Fábio que estivemos muito bem, soubemos gerir, e não entramos em excentricidades, e o resultado estava à vista, resumindo, foi uma prova praticamente perfeita. O tempo que previa fazer estava dentro daquilo que pretendia, agora era só deixar andar até ao final da prova.

A chegada - Créditos na foto
Atravessava a rotunda, e já se começava a ouvir o som da meta, estava feito. Foi ali que finalmente consegui ter a certeza que iria terminar, foi ali que realmente reflecti que tudo tinha corrido bem, e que agora era uma questão de minutos.
Uma última passagem pela rotunda da Anémona, e subir até ao queimódromo, era relativamente fácil, tirando a subida. Só mesmo aquelas últimas palmas que entoavam em nosso redor é que ajudava a não parar na subida. Chegávamos ao final, eu e o Fábio de sorriso rasgado.

Não havia melhor desfecho que este, uma prova de companheirismo e superação.
O que mais me atraiu para voltar aqui, foi as pessoas que apoiam, que fazem a festa por nós, e que transformam as dores em apenas pequenas pisaduras. Mesmo com o tempo feio que esteve, houve um grande apoio, talvez menos do que me recordo do ano anterior, mas dadas as circunstâncias é compreensível. De resto, vejo um maior empenho na organização para continuar a melhorar, com uma falha grave no final, e uma um pouco menos grave. A primeira, que não me afectou, foi do bengaleiro, com uma total desorganização colocando as pessoas à espera dos seus pertences algumas horas, ao frio e à chuva. As condições adversas, contribuíram para esta falha, felizmente houve reconhecimento por parte da organização do problema, que prometem rectificar já na próxima edição.
Outra falha, foi a entrega de uns sacos para protecção e frio da chuva antes do início da prova. No final da prova a deslocação para o carro por muitos atletas era feito a pé, podendo demorar vários minutos sendo percorridos totalmente à chuva e ao vento. Na minha opinião e dadas as circunstâncias, seria mais vantajoso terem entregue no final, de forma a proteger o atleta num momento mais frágil devido a todo o desgaste. No meu caso receei entrar em hipotermia enquanto voltava ao carro para poder trocar de roupa e conseguir aquecer.

Nem tudo foi mau, com três estreias na distância, com expressões do género – “Irei voltar.” – e o meu novo recorde na distância.
2019, Maratona do Porto, contem comigo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Freita SkyRunning - Fantástico


Já foram algumas as vezes que a explorei, não em todo o seu vasto comprimento ou altura, mas já vou conhecendo alguns pontos. Sempre que a visito, descubro novos locais, novos pontos, uns mais visuais que outros, mas sempre surpreendentes. São raras as vezes que não paro para contemplar alguma paisagem, nem que seja para uma simples fotografia daquela imensidão. Esta serra faz-me lembrar o quão pequenos somos, e a dimensão totalmente remota daquilo que vivemos no nosso dia-a-dia.
A Freita conquista-me cada vez que a visito, e ao mesmo tempo molda-me a mente. Quando a piso, penso que já estou habituado a ela, e que posso vaguear à minha vontade. Não podia estar mais enganado. Acabo sempre por recuar nas ideias e respeito-a, e só desta forma aquela rochosa serra me convida a entrar e aguarda o meu regresso.


Foi assim no primeiro fim de semana de Outubro. Dois eventos com características semelhantes divididos entre Sábado e Domingo. O primeiro era a novidade, com uma bruta subida ingreme, encosta acima num final de tarde. O segundo era a estreia para mim, na segunda edição de uma prova dura de roer.
Para aquele fim de tarde o “Freita Vertical”, como lhe chamaram, era na sua essência isso mesmo. Desde o fundo de uma colina, até ao topo da montanha, com a surpresa de terminar na torre meteorológica. As surpresas tendem a ser boas, neste caso foi agressiva, dado o facto de ter que subir 45 metros em escadas, após ca. de 4 quilómetros a “trepar”.
Eram 19 horas, e a luz do dia era escassa, e quando o primeiro partiu serra acima, rapidamente caiu o escuro da noite. Era difícil de os ver, apesar da excelente “varanda” onde nos alojamos para nos privar um pouco do vento que nos rodeava. Aguardamos alguns minutos, e finalmente começamos a ver o primeiro “pisca-pisca” bem lá no fundo. Um pequeno frontal que ao perto parece não conseguir iluminar mais que 20 metros, conseguia-se ver a uns 3 quilómetros de distância. Aos poucos vão surgindo outros “piscas”, e era assim que rapidamente se ia formando a única fonte luminosa que serpenteava aquela serra.
Aplaudimos todos que ali passaram ao nosso lado, e gritávamos um “força”, como se de alguma maneira aliviasse um pouco a dor ou sofrimento, mas que sabíamos que ia dar aquele incentivo extra.


O Hugo foi o único do nosso grupo que quis o desafio a dobrar daquela serra. E daquela noite só nos indicou que estávamos tramados para a etapa de Domingo. Mas isso já sabíamos, só ainda não percebíamos o quanto.

Aquela manhã fresca, não estava nas minhas contas, mas era animadora. Se me propusessem correr com manguitos num dia pouco assoalhado, ou com o mínimo de roupa, devido ao forte calor, a minha escolha cairia sob a primeira hipótese.
Dos vários “bitaites” que foi captando de boca em boca, uma coisa era certa, aquela subida que era comum aos dois dias, era agreste, e o segredo estava na gestão inicial, ou seja, nos primeiros 16 quilómetros de 25 na sua totalidade.
Eram duas distâncias que à chamada, para a partida, eram alvo de controlo de material. Foi tudo feito um pouco sobre o joelho o que se tornou um pouco confuso, retardando um pouco a inclusão de todos no pórtico atempadamente. Regras, são regras e nesta estou de acordo, para além de facilitar o trabalho a quem intervém em situações de risco, também pode ajudar o próprio em diferentes casos.

Controlei cada passada desde início, e em terrenos que conhecia não tive a ousadia de abusar.
Era um verdadeiro carrossel, logo à saída da aldeia de Felgueira. Sobe desce, desce sobe, entre estradões, ou trilhos carregados de pedra.
Seguíamos juntos, cerca de 4 a 6 atletas, misturando entre as distâncias de 42 KM e 25 KM, ultrapassando uns aos outros, mas sem nunca haver alguma fuga de quem quer que fosse.
Curta passagem pela aldeia de Cabrum, e voltava a subir até à Felgueira. Foi dos percursos mais engraçados, pelo meio da flora mesmo junto a um pequeno riacho, e moinhos abandonados, intercalando entre algumas escadas.
Agora, entre estradões, o grupo vai dispersando, e eu acabo por ser o primeiro a afastar, ficando sozinho. Conscientemente, fiquei mais alerta para a gestão, o que na prática era facilmente colocada de lado, dado a facilidade que havia em aumentar a passada, e saborear aquelas descidas apreciando os vales do nosso lado.


Era o regresso a Cabrum, a pequena aldeia, mas onde estava a maior presença de apoiantes ao longo do percurso, e onde estava o primeiro abastecimento. Naquele pouco tempo que ali estive, revi aquilo que havia feito até ali, e o que me restava.
O que ainda faltava vir, era a parte mais dura, subida louca, e terreno técnico. O que tinha deixado para trás, e que acabara de consciencializar, para além do longo carrossel foram as imensas ultrapassagens que até ali fiz. De facto, estava a correr às mil maravilhas, e tudo indicava estar bem posicionado. Foi o meu grande foco para o que se seguia.


De volta ao caminho, sem grandes correrias iniciais por entre campos, até a uma levada que a correr era uma impossibilidade.
Não era a melhor levada que havia percorrido. Talvez de todas as que até hoje fiz, a mais acidentada, e que menos confiança me deu, devido aos estreitos caminhos que a circundavam. Ainda vi a oportunidade de colocar integralmente o pé naquela água fresca, mas o solo era escorregadio, o que seria um cenário ainda pior. Foi assim até chegar a Paraduça, aldeia que aguardava chegar por conhecer em parte o percurso que nos ia levar até à subida. Ou assim pensei eu.

Dali até ao ponto inicial da grande escalada, sabia que ia entrar num estradão bastante rolante, e acabei por me soltar um pouco, mas sem grandes abusos. Estava convencido que já sabia o caminho por ali já ter passado, mas trocaram-me as voltas. Não me enganei na fase inicial, mas quando vejo uma tremenda encosta coberta por agulhas de pinheiros e um ou dois indivíduos a trepar, percebi que afinal não estava totalmente certo das minhas ideias. Foi massacrante aquela subida, seria uma pequena amostra, e um pequeno aquecimento das pernas.
Dei mais uso às pernas nesta pequena subida do que em todo o trajecto até ali já feito.

Chegava ao topo com a quase tentativa de um monte de explosões naqueles músculos mesmo acima do joelho que tanto se manifestavam.
Regressava de novo ao estradão que conhecia, e nos levava a descer até às Berlengas.
Desde aquele pinhal, o terreno rolante terminara. Dali para a frente seria verdadeiros desfiladeiros que iriam ser atravessados. A descida era mais um exemplo disso, terminando mesmo junto ao rio.
Dali para a frente seria uns cerca de 4 quilómetros com ca. 800 metros D+.

Pequena perspectiva da subida
Enganava-me, pensando que seria canja. O início não me era desconhecido, entre os imensos degraus das escadas do martírio. Penso que toda aquela escadaria seria bem mais leve que aquilo que fizemos. Fugimos dos degraus e descemos novamente ao rio, e aí sim iniciava-se a verdadeira tortura.
Não encontrava as fitas, nem se avistava trilho, achava estranho, as marcações foram sempre impecáveis, ali estava alguma coisa a correr mal, algum deslize. Quando olho mais em meu redor, consigo ver uma fita mesmo por cima de mim, mesmo no cimo de uma rocha um pouco aguçada que escondia o trilho entre a vegetação. Era o princípio da escalada, com a ajuda das mãos, e o forte apoio dos pés em qualquer apoio que aquela rocha tivesse, e com pequenos impulsos para a subir. Chegava ao trilho, contornava um pouco a rocha e mais do mesmo, fitas sempre acima de mim, e mais rochas para trepar.
Não estava a dar, assim não ia conseguir.
Tinha conseguido chegar ali em perfeitas condições, mas agora estava ofegante, sempre com sede e com receio que a água não desse para chegar ao abastecimento que existia a meio da subida. Cada passo que dava era um sacrifício, as pernas estavam duras, sentia cansaço e não estava a dar para continuar. Queria sair dali, e abrandar toda aquela tortura, mas estava a ser complicado.

Muita coisa me veio à cabeça, má gestão, desidratação, cansaço acumulado, inúmeras hipóteses…
- “Calma João. Isto é somente uma fase, recompõe-te e tudo irá correr bem.”
Parei ali no meio daquelas rochas, entre os arbustos. À minha frente, iam-se distanciando aos poucos, o que não me incomodava, afinal só queria era sair dali. Atrás não vinha ninguém, por isso não impedia a passagem de ninguém.
Fecho os olhos e respiro fundo umas, duas ou três vezes, e fico sereno. Tomo um gel, verifico a água que me resta, dando uns pequenos goles para ajudar a “empurrar”.
- “OK. Esta é a água que me resta até meio da subida. Lá abasteço e logo se vê. Vamos lá João. Tu consegues”.


Mantinha a cabeça erguida em procura de fitas. E pé ante pé, lá fui prosseguindo, mas desta vez não ficava ofegante, as pernas já não prendiam nem sentia o cansaço a cada pequena porção de terra que subia.
Aos poucos a tortura suavizava. Nenhuma tortura é suave, mas esta dava impressão disso. As pedras aguçadas foram desaparecendo, o caminho também alargava, e o piso já não era em terra. Agora estava a céu aberto, pisando pedra bem entranhada na terra, os pinheiros afastavam-se de nós e o calor apertava.
Não havia tempo para descanso, nem pausas. Não agora. Não agora que estava a correr bem sem que nada me fizesse recuar. Aos poucos vejo a carrinha dos bombeiros na travessia de estrada que existia, e onde estava o ponto para abastecer. Era ali, mas ainda está bem longe.
Consoante avanço e serpenteio de um lado para o outro, pelo menos nesta fase inicial, vou vislumbrando o topo, mesmo onde termina a subida.

Lá em cima no dia anterior, não dava para ter a real noção da dimensão que aquilo era. O quão agressivo e incrível aquilo é. Não quis muito focar no ponto mais alto, mas sim no intermédio, local onde ia abastecer os flasks que já começavam a ficar “amassados” por não existir nada que os preencha.
A carrinha vermelha vai aumentando de tamanho, e finalmente vejo um pequeno grupo de pessoas no alto, e estrada. Ali estava provavelmente o ponto médio daquele segmento, e de me rejuvenescer.

Estava feliz por ter água novamente, dali até ao próximo abastecimento não iria certamente desidratar. Agora era a última secção da subida, e se o piso mantivesse fiel ao que até ali foi, podia dizer que até era relativamente fácil para o que esperava.
Mas não. Não ali, nem dali para a frente. O terreno tornou-se completamente acidentado, com muita pedra solta, e com ligeiro aumento da inclinação. O completo céu aberto e sem pontos de referência sem ser o longo caminho até ao topo contribuía para o desgaste psicológico. Cerrava os dentes, e olhava para cima de vez em quando para dar apenas uma espreitadela, mas o piso obrigava a calcular o melhor pouso para apoiar o pé.

Vindos mesmo lá do fundo de tudo, mesmo atrás da pequena elevação
A minha vista apenas aguardava a ver aquelas pedras aguçadas onde na noite anterior me sentei para ver os “trepadores”. Sabia que iria ser complicado atravessa-las, mas dali para a frente as coisas melhoravam. Na única hipótese que tive de colocar um pequeno trote, rapidamente sou interrompido, ali estavam elas. Seria apenas uma questão de alguns metros e passos bem orientados e estava feito.

O abastecimento estava logo ali, cerca de 200 metros e podia finalmente alimentar. Era o que necessitava para terminar o último quilómetro de subida até à torre meteorológica, e estava feito. Ainda perco algum tempo, e na saída, tento correr devagar, mas não consigo.

Uma pequena má disposição estava a impedir de prosseguir em condições. Vou tentando acalmar a coisa com água, em pequenas porções, e vou minimizando a situação.
Até à torre onde terminava a subida segui a passo, só quando estivesse em condições é que voltava a correr, fora isso não queria saber de mais nada.
Ali estava ela, um dos pontos mais altos da Freita, a torre que indicava o final da tortura.

Chegada às "Berlengas"
Tinha que apressar o passo, o vento arrasta um ar mais fresco, e começo a arrefecer. A corrida tinha que ser improvisada de alguma forma, e lá tento dar os primeiros passos.
A indisposição vai atenuando, e as pernas começam a soltar-se um pouco mais. Não quero abusar, e mais resguardado vou progredindo.

Desço a colina em direcção à aldeia de Castanheira, e num rápido desvio direcionamo-nos para Felgueira, bem lá em baixo.
Já estava recomposto, e quente novamente. A descida não tem muita história, era relativamente acessível, e rápida de percorrer. Em pouco tempo chegava a Felgueira, por entre as casas já antigas até ao ponto onde havia começado naquela manhã fresca.


É sem dúvida uma prova enganadora. Uma má gestão na fase inicial é o suficiente para condenar o resto da prova. É de facto uma prova fantástica, trilhos diversificados, rolantes e duros, sem nunca saber o que encontrar.

A Serra tem destas coisas, e a Freita tem destas coisas.
Esteve simpática comigo, deu-me alguns socos, mas consegui sempre levantar.
Mostrou-nos sítios fantásticos, e terríveis, e esconde muitos outros.
Misteriosa esta Freita.




terça-feira, 9 de outubro de 2018

Trail Serra da Freita - Aos poucos vai lá


Não antevi outro cenário que não este, regressar onde tudo começou, à Serra da Freita.
A primeira incursão nesta prova foi há cerca de 1 ano atrás, e com alguns problemas que existiu no decorrer da prova, e uma descida improvisada em cima do joelho, fiz questão de dar uma nova oportunidade. Foi também oportunidade para levar alguns estreantes na prova, e outros que disseram que ali não voltariam.
Em pleno final de mês de Junho, o cenário que antevíamos era de imenso calor, e de grande preocupação com a chegada ao topo da serra, ficando mais expostos ao sol. E ao contrário do que se esperava, o dia esteve cinzento, com o sol a mostrar o ar da sua graça em poucas ocasiões. Uma chuvada, idêntica à que durante a noite me fez acordar, era uma possibilidade, o que fez com que tivesse que juntar um impermeável ao meu equipamento. Não era espectável aquele tempo, contudo, agora agradeço, dada a temperatura que esteve, que era óptima para correr.

Créditos: Organização
A proximidade das localidades, facilitou o levantamento dos dorsais ainda no dia anterior, para evitar correrias de última hora.
Dia da prova e lá nos encontramos cedo, para rumar a Arouca, com 7 elementos que iríamos aos 26 KM pela Serra da Freita.
Encurtaram a distância cerca de 2 KM em relação ao ano passado, o que a princípio pensei que fosse algum erro de calculo por parte da organização, mas estava enganado, eram efectivamente entre os 25 a 26 KM.
A concentração é feita no pavilhão, onde é feito o controlo zero para a partida no exterior das instalações. E à hora anunciada estávamos a dar os primeiros passos de corrida.

Créditos: Organização
O arranque é feito pela estrada principal, encaminhando-nos logo de seguida por umas ruelas, que nos levavam ao início da subida para o topo da serra. As pequenas passagens pelo asfalto era apenas um elo de ligação com outros trilhos. Estava a recordar-me de todo aquele percurso da edição de 2017, e tinha mais ou menos noção do que ainda faltava, sendo a parte mais complicada nos primeiros quilómetros. Eram as subidas com mais inclinação que me colocavam as pernas mais duras, a lama era uma preocupação para não escorregar, e os single tracks que existiam eram brutais de mais para não se correr, serpenteando aquela encosta. Recordava-me de um, que tinha adorado, mas que sabia que me ia dar mal, e não foi para menos. As pequenas árvores que vão crescendo novamente, devido aos incêndios, são uma fantástica ajuda para progredir, dado a terra batida que a cada passo que dávamos era uma possibilidade de o pé escorregar.
A subida não é de muita confiança, sabemos à partida que são cerca de 8 KM até ao topo, mas pelo meio vamos tendo direito a pequenas porções de planos ou mesmo descidas para poder rolar, o que vendo bem, acabava por ser bom para soltar um pouco as pernas, mas enganando o zé povinho quando sabe que a subida só termina chegado às eólicas que estão mesmo no cimo da Freita.

Aos poucos vou vendo as enormes pás das eólicas girando, e sei que estou mesmo a terminar. O céu cinzento que nos cobria já ia mostrando um pouco o seu azul, e vamos tendo as fantásticas vistas sobre toda as nuvens que havíamos furado no decorrer daqueles quilómetros, e que agora ficavam para trás. Coloquei quase todas as minhas energias nesta fase, e o abastecimento foi a minha fonte de energia. Passei pouco tempo ali, mas o suficiente para ganhar energias para o que havia a ser feito no alto da serra.
O trajecto era o mesmo, e em nada modificou, e assim prossegui rumo ao segundo abastecimento antes da descida.
O percurso era irregular de início, e bastante acidentado, propicio a torcer algum tornozelo, seguido de um PR que já conhecia, mas em sentido contrário ao que agora fazia.
A escolha do caminho no topo da Freita, foi do mais simples que houve, aproveitamento de trilhos abertos e PRs. Felizmente, escolheram a parte mais técnica e bonita de um deles, junto ao rio. O resto era mais do mesmo.

Créditos na foto
Chegado ao abastecimento, foi com mais calma que me alimentei, aproveitando para recuperar alguma energia. Sabia que a descida iria começar dentro de pouco tempo, e que existia uma secção que iria ser uma valente dor de pernas.
Enfim, lá me mentalizei, e segui, sem antes ainda ter umas pequenas subidas, onde estava a querer quebrar. Se no 1º abastecimento a curta passagem, consegui recuperar, neste com uma pausa um pouco mais longa, não estava a conseguir. Os músculos estavam presos, e sentia cansaço. Intervalei a corrida com caminhada, e minimizar os esforços ao máximo, mas já estava a iniciar a descida. A descida é um trilho completo de pedra solta e rolante, o mínimo de deslize era queda certa. A correr por ali com as pernas presas estava a ser um sacrifício, caminhar era difícil, e o travar era massacrante para os joelhos. Teve que ser uma mistura destas duas últimas e de alguma maneira lá consegui. Quando finalmente penso que aquele tormento todo havia terminado, surge um dos novos trilhos que era mais do mesmo.

A melhor descrição que ouvi daquela descida foi a de um atleta que ali ia comigo – “eles chamam a isto de trilhos técnicos, mas isto para mim é trilhos fodi#@$ (se é que me entendem)”.
Foi sem pressas que fiz toda aquela descida, em que os joelhos teimavam em manifestar-se. Nem tudo era mau, de facto foi uma alteração que foi bem mais que bem-vinda em relação à descida das edições anterior. Era mais técnica, mas mais versátil que a monótona que teríamos que fazer.
Apesar de daquele terreno rude, o final foi a passagem para uma das partes mais bonitas de todo o percurso. Toda aquela descida em pedra, era feita em céu aberto, encaminhando-nos para uma floresta cerrada pelas árvores.

Créditos na foto
Entramos num ambiente totalmente diferente, o céu era coberto pela vegetação das árvores, o piso era composto essencialmente por folhas caídas das árvores, e terra batida, e paralelamente ao nosso percurso havia pequenos riachos, que por vezes era o nosso local de passagem, como que um refresco para os pés. Vinha de um local que era difícil correr sem pensar duas vezes antes de dar um passo, chegado ali, num terreno bem mais rolante, as baterias foram carregadas automaticamente sentindo as pernas soltas e pronto a conseguir dar novamente uma espécie de corrida.
Não era por ser um espaço bem mais agradável, que era mais fácil. Exigia outro tipo de atenções, e de saber controlar o ritmo de forma a não quebrar. E foi aí que falhei. Já num segmento que ligava o percurso aos caminhos da recta final coincidentes ao ano anterior, as pernas começaram a dar os primeiros sinais de desgaste. Aqueles músculos mesmo juntinhos aos joelhos começavam a dar as picadas, de quem como se manifesta para parar. O facto de nos 2 últimos quilómetros serem praticamente em estrada, e totalmente desinteressantes não ajudou em nada, e só me restava atravessar a desejada meta.
Entrada no recinto do pavilhão com direito a subida pelas escadas, e regresso ao pavilhão para concluir mais uma passagem pela Freita.

A comitiva
Conseguiram melhorar significativamente o trail mais curto, e o contentamento foi unânime para muitos que ali estavam. Além de o melhorarem fizeram-no cerca de 3 quilómetros mais curtos, mas mais desafiante. Com abertura e descoberta de novos trilhos que tornaram esta distância bem mais interessante.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Hard Trail Monte da Padela - "Inclina-te"


Após ter deixado passado passar a oportunidade de experimentar uma prova de Skyrunning, na minha terra, fiquei com curiosidade em me testar nesta modalidade e ver como seria a diferença relativamente a provas de trail. Não conhecia a Padela, nem a região em questão, muito menos a prova. Foi como se aparecesse do nada, e me chamou à atenção mal a vi. Não era para menos, tendo em conta que a prova tinha uma parceria com a Compressport, e ofereciam uma t-shirt da marca que achei lindíssima. Após algumas buscas por vídeos de outras edições, fiquei admirado pela “coroa”, chamemos-lhe assim, daquela prova. Um piso rochoso que fazia lembrar algum concurso de alpinismo. Foi aí que fiquei rendido. Iria à prova, em primeiro pela camisola, e depois por aquela subida.



Ainda foi possível reunir 5 atletas para madrugar, e partir para Barroselas. Todos iriamos para a distância mais curta (15 KM). E o motivo era simples, todos estreantes em Skyrunning. Aliado a ter realizado uma meia maratona na semana anterior, foi a escolha mais sensata. Viagem feita debaixo de nevoeiro à semelhança do que já tinha passado no fim de semana passado, a juntar algumas gotas pelo caminho, mas chegado ao local, aos poucos abriu, e num dia ameno estava tudo pronto para a brincadeira. O levantamento dos dorsais foi fácil e rápido, e a viagem para o local de partida também sem problemas. Uma vez mais uma prova linear, e com transporte por parte da organização. Chegamos cedo ao local de partida, e ainda deu para dar um aplauso e animo a quem partia para os 20 KM, tornando o ambiente um pouco mais festivo.

Créditos na foto
Dado termos seguido logo no primeiro transporte, tivemos que aguardar ainda algum tempo para chegar a nossa hora, o que deu para ainda ver se conhecíamos alguma coisa naquele perímetro, contudo a única antiga e pequena igreja era a única “atracção” nas redondezas. Assim que se aproxima a hora, juntamo-nos à comitiva toda que ali aguardava para o arranque.
O meu estado de espírito para andar a correr naquele momento era quase nulo, estava sem apetite e a vontade em voltar para o autocarro e voltar para trás era grande. Aliás, assim que levantei a t-shirt, disse que o objectivo estava feito, por mim já ficava no carro a dormir, e esperava por eles chegarem. Mas lá me forcei a ir.
Sem grande atraso, lá foi dado o sinal de partida, e seguimos lançados para a “diversão”.
Arranquei praticamente do fundo do pelotão, e não estava com grandes pressas, estava a seguir num ritmo confortável, mas naquele momento queria terminar aquilo depressa, então, iria tentar a minha sorte e logo se via, podia ser que despertasse, e saísse aquele ar de sonolência.

Era a subir o primeiro quilómetro, entre estradões largos, uns já vão caminhando, outros, incluindo eu, tentando num trote simpático avançar no terreno. Apesar das inúmeras pessoas que ultrapassei o mais que previsto engarrafamento iria acontecer, assim que nos enfiamos numa pequeníssima levada. A fila era enorme, e ultrapassagem era pôr em risco tanto a nós como os outros, contudo, nem tudo era mau, assim foi fácil para recompor a caixa minimamente para depois seguir tranquilo. Nova subida para nos tirar do single track, e levar-nos a novo estradão, que já deu para dispersar e andar à vontade. Subida até a um pequeno cume, bem verde, e temos a primeira descida. Já estava a ter uma pequena noção do que realmente distinguia o trail do skyrunning, e estava a gostar. A descida era espectacular, e deu para abusar moderadamente, saí disparado, mas lembrei-me logo que poderia estragar joelhos para o final da prova, e contive-me.

Foto: Organização
Ao longo do percurso, fui-me apercebendo que assim que terminávamos alguma descida ou subida, o espaço que existia entre o seguinte declive era curto, e quando havia terreno para rolar, já era com alguma ligeira inclinação, não existindo tempo para descansar as pernas. Arranquei com manguitos devido à temperatura fresca daquela manhã, mas nesta altura já os tinha retirado, e a sonolência já tinha desaparecido. As inclinações eram sempre brutais, incluindo algumas técnicas, e as descidas eram mesmo ao meu gosto, chegando ao ponto de me esquecer por vezes que devia abrandar, só lembrando quando aqueles músculos começavam a dar sinais de uso. Somente na passagem pela descida em calçada romana, em que o piso era bastante escorregadio, é que não abusei, lembrei-me logo na possibilidade de um valente bate cu. Estávamos a chegar ao primeiro abastecimento, que continha o mais básico, e o suficiente para aquela altura, e foi altura também de juntarmos aos atletas dos 20 KM.

Créditos na foto

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Com alguns quilómetros a mais que nós, já iam com uma passada mais branda, mas facilmente cediam passagem. Logo após o abastecimento, seguimos para o trilho mais bonito de toda a prova, e dos mais desafiantes. Junto ao leito do rio, iniciava-se uma subida de cerca de 250 metros, até ao ponto mais alto, com 400 metros de altura. Praticamente todo feito em single track no meio de uma vegetação bem mais densa do que tivemos até ali, e num ambiente mais húmido. Uma pequena corrente de água ia fazendo a delícia aos olhos, sempre que ficava com os gémeos a gritar comigo para abrandar um pouco. Sair dali, foi gratificante para as pernas, mas doloroso para a vista, apenas confundida com a vista em voltadas serras, e por alguns trajectos que já havíamos passado anteriormente.

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Seria altura de “largar” os atletas dos 20 KM, e seguir nosso caminho para a “coroa” desta prova. Já a aguardava algum tempo, mas pensei que fosse mais para o final. Havia chegado a um abastecimento e apenas quis alimentar, e repor energias, sabia que estava a precisar, e ajudou-me bastante a recuperar. Era dos abastecimentos mais completos que vi até hoje, até bolas de Berlim tinham, para termos a noção do quão completo é, que até o supérfluo ali estava. Contudo, para chegar aos 400 metros de altitude, teríamos que subir mais. E enquanto me recomponho, tento ver qual o caminho a seguir, e é assim que vejo a enorme rocha que nos separava do topo. Uma autêntica escalada em piso rochoso com corda no meio para ajudar a subir. Seria por ali o caminho, e na minha ideia era ali que iria ser derrotado.

Foto: Organização
Altura de ver se conseguia subir sem escorregar, mas devido ao piso inicial da pedra, as sapatilhas deslizavam um pouco, então optei por seguir agarrado à corda. Já a meio, acabei por largar e subir facilmente sem escorregar. Felizmente não saí dali derrotado, e prova disso foi o à vontade que segui na descida. Primeiro por estradão em terra, mas rapidamente modificado pelo verde da erva. Já no final, em single track por entre algumas rochas, até a um pequeno parque de merendas. Adorei aquela descida.
A ideia de ali estar apenas pela camisola já era passado, estavam a ser subidas e descidas muito boas para estar a pensar apenas em brindes.

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Mas o melhor ainda não tinha chegado. Deram-lhe o nome de “UpHill”, que descreve na perfeição a última subida que faltava. Se a escalada rochosa, pensava eu, que era a “coroa” da prova, a subida que tínhamos pela frente rapidamente ter-lhe-ia destronado.
Chegara a altura de ver como todos aqueles músculos das pernas estavam, e conhecer outros tantos que provavelmente nunca foram usados.
Hora de pôr as ideias no sítio e subir calmamente sem estragar tudo. Aos poucos fui prosseguindo, vários atletas com quem até ali segui junto, estavam a começar a fraquejar, e abrandavam, fui ultrapassando e dos olhares que fui fazendo ao topo, estava a achar demasiado fácil. Ali no alto, estava uma barraca com música e pessoal a apoiar, a dar aquele incentivo extra, e assim que me aproximo deles, esbocei um sorriso, de conquista como se tivesse feito algo de outro mundo. Infelizmente, o sorriso desapareceu, e fiquei de boca aberta. A percentagem de inclinação deveria rondar no mínimo os 30%, nunca abaixo disso, e aquela barraca animada, num estradão que dividia a continuação do “UpHill”, escondia o que faltava. Quando olhei, rapidamente veio-me à memória os vídeos que vi da Red Bull com a prova “RedBull 400”, só para termos algum dado de comparação.

Créditos na foto
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Agora compreendia o progresso mais lento de outros que havia ultrapassado, afinal não eram eles que estavam a fraquejar, estavam a precaver-se. Enfim, dentes cerrados, e siga conhecer os restantes músculos que as pernas escondem. Para o caso de alguém achar aquela subida era fácil demais, já a meio, o piso começa a complicar-se com alguma pedra solta, e terreno mais acidentado. As pernas estavam duras, mas ainda davam para chegar ao cimo. Últimos metros, e tento meter uma passada semelhante à corrida, mas felizmente e finalmente estava ali o último abastecimento antes da meta, mesmo no alto. Não cheguei a olhar para trás, para ver a imensidão daquela subida, mas também não sinto muitas saudades.

Foto: Organização

Foto: Organização
Como nos habituaram até ali, a descida não demorou a aparecer, e seria assim até à meta. Sem abusos inicialmente, mas com mais velocidade junto ao final até atravessar a meta.
A chegada até ao pórtico final, era entre vários apoiantes que tornaram aquela chegada mais animada.
Foram 15 KM de pura diversão e gozo, mas bastante desafiantes ao mesmo tempo. Consegui sempre gerir, sem nunca levar ao limite, e ter uma pequena noção de como realmente o SkyRunning funciona. A organização esteve impecável em todos os aspectos, não conseguindo apontar um defeito que seja.

Valeu bem mais que a t-shirt.