sexta-feira, 21 de junho de 2019

Maratona da Europa - Um brilharete


Foi uma surpresa agradável. Logo que soube que iria haver uma terceira maratona em Portugal, perto de casa, e com meses de separação em relação às restantes (Lisboa e Porto), não olhei para trás.
Era Aveiro a cidade escolhida, local conhecido por ser relativamente plano, em contrapartida, algo ventoso. Fosse como fosse, queria lá estar às 08.30h no final do mês de Abril.
A tarde de Sábado, foi para ir calmamente levantar os dorsais, e tentar apreciar alguma coisa do evento, como a feira da Maratona. Feira essa que escapava aos mais desatentos. O que não me escapou foi a forte ventania que estava naquela tarde. Vento forte e frio, valia o sol para aquecer um pouco, enquanto imaginava o sufoco que ia ser o dia seguinte se assim se mantivesse.
Créditos: Organização
Créditos na foto
Manhã de Domingo, e nada me incomodava, não estava com aquele nervoso miudinho de uma maratona, nem pensava muito nisso, parecia que iria só ali ao lado correr uma distância curta e já vinha. No entanto a minha ideia, e tendo em conta a minha (má) preparação, apontava para as 03.30h, mais coisa menos coisa, e como eu estava enganado.
A chegada a Aveiro, surpreendeu-me logo por dois motivos, o primeiro pelo tempo. Não havia ponta de vento, e o céu era coberto pelo nevoeiro cerrado, sem ser possível ver um raio de sol. O segundo motivo, era o evento em si, era uma partida/meta vistosa.

O evento juntava outras distâncias, e é nisto que culpo um pouco a organização, em juntar todos para arrancar à mesma hora, era algo confuso, para além das estreitas estradas logo de inicio que dificultavam a progressão.
Aguardava pela hora, eu e o Fábio, enquanto conversávamos íamos deixar rolar a ver no que dava. Sabia que aquilo era aquela habitual conversa pré partida, que quando estivéssemos no terreno a coisa era diferente.
Não demorou muito a comprovar isso, tiro de partida, e saímos ainda algo contidos, mas sempre com ultrapassagens devido à confusão. Mal o Fábio vê algum espaço para poder progredir, e isto ainda com sensivelmente 1,5km, avança, ainda me coloquei atrás dele, mas pensei para com os meus botões, “deixa-te ir aqui, que vais bem, e já vais a abusar”. Seria uma luta minha, sozinho e sem objectivos, apenas deixa andar. No entanto sabia que para aquelas 03:30h, teria que andar num ritmo próximo de 5 min/km, o que ia a fazer, era uns 4:20 min/km, e quando se metia descidas pelo meio, abusava um pouco.
 
Créditos na foto
Circundava Aveiro, junto à ria, depois mercado do peixe, algumas ruelas, e então a Avenida que nos levava aos primeiros 10KM. Ia-se vendo algum apoio pela rua, não tanto como era desejado, mas é compreensível por ser novidade na cidade.
Enquanto deixava Aveiro para trás, ia magicando como seria dali para a frente, o relógio apontava para um brilharete, mas estava reticente em relação a isso, não tinha treino para tal.
Foram cerca de 6 quilómetros uma zona industrial, e a separação da maratona da meia maratona, as estradas ficavam um pouco mais vazias, e após alguns quilómetros com “companhia”, procurava alguém a quem me colar para não seguir sozinho.
Ainda arranjei alguém com quem segui durante uns metros, mas rapidamente fiquei sozinho, continuava sempre no mesmo rimo, e sem sinal sequer de fraquejar, ou mínimo de cansaço físico. Seguimos até Gafanha da Nazaré, onde já encontrava mais companhia, as ruas começavam a ser preenchidas, ou mesmo nas janelas de casas, havia sempre alguém que aplaudisse, provavelmente a parte mais divertida. Chegava aos 21KM, e enquanto olhava para o relógio, via que acabava de fazer o meu segundo melhor tempo na distância, e sem sinais de quebras.

Juntava-me a outro atleta durante alguns quilómetros, enquanto metíamos conversa para nos distrair com o passar dos quilómetros.
Com 25 quilómetros, entro na Barra, local bastante conhecido por ser bastante ventoso, algo que me preocupava, mas nada, apenas pequenas brisas que só ajudavam a arrefecer o corpo.
Enquanto contornava a Barra, acabava uma vez mais por ficar sozinho, desisti de procurar companhia, e seria altura de seguir à minha vontade, e testar-me.
O relógio acusava os 30 quilómetros já percorridos, enquanto pensava nos míticos muros, mas ao mesmo tempo continuava a sentir em perfeitas condições. Foi ali que comecei a delinear o desfecho da prova, ia tentar um brilharete.

Eram longas rectas que me levavam até Aveiro, valia a zona habitada e os locais, espaçados em alguns grupos para dar mais algum animo. O sol começava a espreitar, todas as sombras que visse, eram o meu local de passagem.
Agradecia em jeito também de despedida a todos que me saudavam, enquanto seguia para o segmento mais me massacrou.
O sol já se conseguiu descobrir de todo aquele manto cinza, não que seja muito forte, mas aquecia o suficiente para me derrotar um pouco, e naquele descampado, numa longa recta, não facilitava em nada. Foi um pouco doloroso chegar a Aveiro, sob o sol, mas ali chegado as sombras ajudavam, e já faltava pouco. Estava curioso para ver aquela meta agora com 42 quilómetros nas pernas, mas ainda faltava uns longos 4 quilómetros.

Créditos: Organização
Começava a fazer contas de cabeça, a ver quanto tempo demorava a terminar aquilo, mas só me massacrava mais o psicológico. “Para, para de pensar nisso, e corre” – Pensava eu, enquanto percorria a universidade, mais algumas rectas, mas que valiam pela sombra, e ali sozinho sem ninguém atrás nem à frente, forçava o ritmo até ali feito.
O calor estava a afectar, e precisava de água para beber e refrescar. Ali estava, faltavam 2 quilómetros para o final, e estou no centro de Aveiro.
Era o culminar de tanta solidão ao longo de vários quilómetros. As pessoas na rua, aplaudiam e constatavam o que já sabia, que faltava pouco, mas quando ouço que faltava somente aquela subida, e depois era sempre a descer, foi como me dessem umas pernas novas. Podia não ser bem assim, mas naquele momento acreditei em todas as palavras que me tinham dito, e desatei a correr, forcei um pouco mais e estava mesmo no alto, parecia que tinha conquistado uma montanha.

Faltava atravessar a ponte, e depois era só descer, tal como me tinham dito.
Alegra-me ver a descida, mas ao mesmo tempo os músculos apertam, ignoro, levanto a cabeça e sigo em frente. A uns 200 metros parece-me ver o Fábio, mas não podia ser. Ele ia bem à minha frente, e provavelmente já teria terminado. A menos que alguma coisa tivesse corrido mal.
Aos poucos vou ganhando terreno, e era mesmo ele. Algo deve ter acontecido, para ele estar ali, alguma quebra o fez atrasar. Acelero um pouco mais para ver se conseguia terminar com ele, e dar-lhe força naqueles metros finais. Fim da ponte, e os quadríceps apertam de tal forma, que parece que vai dar cãibra. Não agora, não ali, uma vez mais ignoro, e tento ganhar mais alguns metros. Começa a cheirar a meta, surgem mais apoiantes, mais gente a aplaudir, e um enorme corredor humano que nos leva até ao final.
Apanho o Fábio, coloco a mão nas costas e chamo-o “vamos lá, até ao fim”, era uma meta cheia, cheia de gente, e cheia de boa disposição.
Foi um brilharete em todos os sentidos. Uma organização que para uma primeira edição esteve bem acima do razoável, obviamente existem coisas a melhorar, mas a estrutura de base é esta, e pareceu bastante sólida.
O brilharete maior para mim, foi a nível pessoal, que consegui atingir um tempo que jamais pensaria lá chegar se não treinasse para tal. Retirar 30 minutos ao tempo final é muita coisa, fiquei quase perto das sub 3 horas, mas as 03:05h de prova, já me satisfez por completo.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Trilhos Termais - Um carrossel nocturno


Há provas, e provas. Umas que vamos juntando à lista de “A fazer”, outras que colocamos logo de lado, e outras que se der e puder, até faço. Os Trilhos Termais, enquadrava-se na última opção. Foram diversos os factores que contribuíram para acabar por ceder e participar, mas um dos principais era o facto de ser uma prova nocturna, em que a luz do frontal era a única forma de ver os trilhos .

Se era novidade correr à noite em trilhos, a chuva também ia marcar presença.
Água em abundância durante o dia todo, e eu a magicar em como iria ser. Caminhos alagados de água, lama, piso escorregadio, com a imprevisibilidade do terreno e falta de luminosidade, iria ser uma experiência e peras.
Ainda faltava 5 minutos para as 20h, a chuva já tinha abrandado, e o sol ainda conseguiu furar as nuvens, tornando uma partida ainda ligeiramente diurna.
Não éramos muitos atletas na prova nocturna, mas a estreita saída não dava para fluir da melhor forma.
 
Logo após a partida. Créditos: Organização
Contornávamos o edifício das termas e aproveito a recta para dispersar um pouco do pelotão.
Sabia que iríamos entrar em caminhos mais estreitos, e se não fugisse dali, iria correr o risco de ter que parar mais à frente.
As travessias em pisos sem qualquer atrito parecia uma pista de gelo, as pontes em madeira era uma preocupação, felizmente eram curtas.
Os primeiros passos em trilhos confirmavam o cenário de lama, tentava procurar o melhor terreno para colocar o pé. Ainda havia alguma luz do dia, e podia abusar um pouco mais. Metia-se a primeira subida, curta, mas inclinada. Não arredava pé e mantinha um ritmo confortável para as subidas, os single-tracks eram uma excelente surpresa, mas não dava para desfrutar deles, para além do piso enlameado tinha gente pela frente, e só com o alargamento do caminho é que dava para passar.

Na subida por entre um pinhal dava-se o início da falta de visibilidade, iria ser o verdadeiro e derradeiro teste ao meu frontal. Colocavam-se mais single-tracks, caminhos trabalhados, estava a gostar.
Alguns trilhos coincidiam com o Ultra Trail Medieval, e conhecendo começava a abusar um pouco mais. A primeira grande descida, já a conhecia. Ali não havia lama, só pedra solta e raízes das árvores, e em forma de zigue zague, deixei-me ir.
Dali até ao parque de merendas, era tudo caminhos que conhecia, início em estradão, mas a entrada no parque modificava tudo, vários single-tracks, e um género de bosque, estando protegidos por a vegetação das árvores.
 
No parque de Merendas. Créditos: Organização
A noite já estava cerrada, não havia luz se não os frontais e alguns pontos reflectores que nos facilitavam a encontrar o caminho.
Seguia paralelo ao rio Uíma, até ter mesmo que o atravessar. A noite fria já não se sentia, estava bastante quente, e aquela corrente que me cobriu quase até à cintura foi como um refresco.
Surgia a primeira subida que me fez acalmar um pouco. Ofegante, mantinha um passo certo, em jeito de caminhada, as pernas estavam a responder a tudo o que pedia.
A descida estava logo após uns metros, sem trilho, por entre as árvores, com o dobro da atenção para não rebolar até ao rio novamente.

O estradão que separava da próxima subida, foi feita de forma a soltar as pernas, sentia um pouco pesadas. E reflectiu-se mal a iniciei, obrigando a caminhar, não que fosse muito íngreme ou extensa, mas pela grande quantidade de lama e pedras. Só após alguns metros, começo num pequeno trote por ali acima, desviando da vegetação que ainda se estende para o caminho. A chuva que se acalmou durante uns minutos, voltava a aparecer, ainda que tímida quando corria para a descida, mas forte assim que começo a descer. A visibilidade ficou fraca, mesmo com a luz do frontal no máximo, a chuva era tanta, que impedia de ver na totalidade.

O carrossel mantinha-se, apesar de ser uma prova bastante rolante, as subidas e descidas eram seguidas, não muito inclinadas, nem demasiado extensas, o que dificultava era mesmo o piso escorregadio e enlameado.
Prova disso, era o facto de fazer grande parte das subidas a correr, mesmo a mais extensa, com cerca de 1 quilómetro de extensão, tinha apenas 90 D+, tendo apenas parado no abastecimento. Não estava interessado em parar ali muito tempo, pareceu-me estar bem composto, mas assim que vejo uma caixa cheia de gomas, não olhei para mais nada, agarrei em algumas, e volto ao caminho.
Começava a passar pela malta da prova do sunset, alguns ouviam e davam o jeito para ultrapassar, outros, lá tinha que pedir licença para passar. Estava um pouco inclinado para tentar o meu melhor tempo possível, e para isso teria que entrar um pouco em modo competitivo, mas aquela confusão nos trilhos não me estava a permitir para tal.

Créditos: Organização
As descidas agora já eram feitas sem grandes preocupações, o terreno estava bastante mais acessível, aproveitava também a iluminação dos restantes atletas para ver o melhor caminho.
Surgiam grupos cada vez maiores, em single-tracks só conseguia ultrapassar caso forçasse as pernas por meio da vegetação, não havia maneira de me deixarem passar, estava a ficar chateado com aquilo, não que fosse ganhar alguma coisa, mas queria tentar dar o meu melhor, e ver até onde conseguia ir, basicamente uma prova sempre a fundo.
Agradava-me ver uma subida, sabia que ali conseguia dispersar daquela multidão. Comecei logo a correr, não parava, ainda estava com pernas para tal, e só dessa forma conseguia levar a prova ao limite.
O trilho era mais técnico, e serpenteava encosta acima.
Feito. Agora restava descer, e rolar até ao final. A descida foi feita rapidamente, o desnível ganho anteriormente, foi rapidamente retirado.
As pernas estavam frescas o suficiente para ainda conseguir abusar mais um pouco. Os estradões facilitavam a corrida, eram bem mais estáveis, e rolantes o suficiente. Continuava a ultrapassar mais atletas da prova anterior, mas agora não era impeditivo de correr.
O fim dos trilhos e estradões, era feito pela passagem por um pequeno parque de lazer, com um caminho um pouco mais estreito, mas onde estava bem lotado.

Estava um caminho bem mais preenchido, mas felizmente estavam minimamente organizados para poder seguir, e ouviam alguém a correr, e davam indicações a quem ia na frente.
Agradecia, enquanto ainda tinha pernas para correr. Ao fundo ia ouvindo o speaker, significava que estava quase a terminar.
Numa das ultrapassagens, surge um pequeno grupo vindo da esquerda que se tinha enganado no caminho, vinham a reclamar, mas a distracção ali a meu ver foi deles, não tinha como enganar, o caminho era previsível, e as marcações estavam impecáveis.
O que me enervou, foi o facto de vir num ritmo forte, e eles ao verem-me, colocarem-se na minha frente. Foi uma travagem brusca para não me mandar contra alguém, fiquei piurso naquele momento. Para ajudar, colocaram-se lado a lado, e não tinha maneira de passar.

Depois de alguma insistência, lá consegui passar, logo atrás de um deles, que queria correr mais um pouco enquanto ainda reclamava. Mesmo assim não era o que queria, e então numa ultrapassagem mais ginasta, lá consegui.
Já ali estava a meta. Via o edifício das termas, era só o contornar e atravessar o pórtico. Os últimos 700 metros, foi a todo o gás. Esta luta valeu-me o 10º lugar na geral. Cheguei satisfeito ao final, mas com conhecimento que podia ter conseguido mais e melhor, se não houvesse tanta confusão nos trilhos.

Já na recta final. Créditos: Organização
O percurso em si, não é nada de extraordinário, muito à base de estradões, excetuando alguns single-tracks, que apesar de estarem escorregadios, são os únicos trilhos que diferenciam a prova. O facto de ser uma prova nocturna, ajudou a uma experiência totalmente diferente, a chuva fez com que o desafio ainda fosse maior. A adrenalina era outra, e o facto de o percurso ser bastante corrível contribuía para levar a prova mais a sério, mais ao limite.
Só mesmo, na parte final, aquela confusão constante de atletas nos trilhos, não facilitava nada a progressão, atrasava sempre algum tempo, e as quebras de ritmo eram constantes. Fora isso, é posso afirmar que consegui divertir.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Corrida do Dia do Pai - Uma luta desequilibrada


Já o havia conseguido em Ovar, mas queria repetir o feito. Fazer 10 KM abaixo dos 40 minutos.
Na minha ideia, tinha estofo para o fazer novamente, e iria tentar custe o que custasse.
A Corrida do Dia do Pai, era o ideal para o fazer, percurso na sua maioria plano, muita gente a correr e a apoiar, junto ao mar, o que contribui para uma aragem mais fresca. Enfim, tudo para ajudar.


A manhã de Domingo era fresca, previa-se chuva, o que até me agradava. Ambiente fresco ajudava a não aquecer em demasia. Em contrapartida, afastava muita gente das ruas, faltando aquele ambiente típico de festa em algumas zonas, que tão bem me recordo das 2 vezes que participei. Não correm por nós, é certo, mas dão cá um ânimo e força, lá isso dão.
A minha chegada coincidiu com alguns chuviscos, aquela morrinha, aliada a uma brisa fresca.
Arrepiei-me mal saí do carro, e num passo acelerado para evitar arrefecer em demasia, fui em direcção à rotunda da anémona, ao encontro de mais malta para um aquecimento. Era lá o ponto de encontro, e o percurso para um breve aquecimento, queria estar minimamente quente aquando o tiro de partida.

Era a minha estreia, minha e do Fábio, na sub-elite. Conseguimos estar mesmo na frente do pelotão para evitar aquela habitual confusão do tiro de partida.
O início já o conhecia, era a subir, mínimo de inclinação, mas a subir, e como estávamos frescos, nem dávamos por isso. Assim foi, no meio de tanta confusão, e da euforia de muitos em querer dar o sprint logo ao arrancar, a minha preocupação era não cair e ser atropelado.
Tentava afastar o mais possível, encostado à direita, a afluência era menor, e dava para ir avançando ao meu ritmo, impedindo a mim próprio de ir mais rápido do que o que devia.
Fim do primeiro quilómetro, já com retorno feito, e início da descida, e confirmo o tempo pelo relógio, 3:52 min/km, era rápido demais, aquele devia ser mais ou menos o ritmo para a restante prova, e não o de início. Objectivo era fazer o primeiro mais lento, e só depois aumentar e manter.

Estava feito, agora seria tentar manter. A partir dali era descer e plano, em direcção à rotunda da anémona, sem antes ainda ter direito a mais um retorno. Fui sempre consistente, e a partir dali a passada era regular, estava a sentir-me bem, e com vontade de bater o meu recorde.
Conhecia o percurso bem, algumas alterações que fizeram ao percurso, aproximou mais do trajecto inicial da Maratona do Porto, e sabia com o que podia contar.
A anémona era o ponto de maior enchente e grande festa, desta vez, teria que contentar com aqueles corajosos que decidiram contrariar a vontade da chuva.

Rumo ao porto de Leixões, mantinha-se o plano, não havia desníveis que se sentisse, o único inconveniente era a passagem por alguns paralelos, mas nada que massacrasse.
Continuava bem, e ainda não tinha sinais aparentes de quebra, ia distraindo com o pessoal que já vinha do retorno, e ver se via alguém conhecido, formas para ocupar o tempo.
Novo retorno, e deixo o Porto de Leixões para trás, agora a distracção era ver quem vinha atrás, tentava ver alguém, mas a confusão era muita, acabei por desistir, foquei-me em encontrar alguém para me encostar, mas parecia que todos estavam a aumentar o ritmo. Estava prestes a entrar no quilómetro 7, e as coisas pareciam complicar-se.
As pernas estavam um pouco presas, e a respiração descontrolada, algo não estava a correr bem. Cerrava os dentes, e tentava manter o ritmo, mas ao consultar o relógio, estava a abrandar.


Isto é apenas um pequeno descontrole da respiração e já recomponho, pensava eu. Abrandei um pouco, e tentava manter os 4 min/Km, estava a custar, e as oscilações de ritmo eram grandes, tanto conseguia aumentar a cadência, como de repente descia. Aguardava por entrar no quilómetro 9, onde já existia novamente apoio, e pudesse recuperar alguma energia, fosse lá de onde ela viesse.
Pequeno corte à direita, e entramos na marginal, aos poucos as pessoas vão surgindo, mas nem daí estava a conseguir recuperar.
O vento fez questão de fazer companhia. Uma forte ventania, colocava-se entre mim e o resto do percurso. Tentava colocar atrás de alguém, mas não estava a dar, estava ofegante, e pernas presas.
Detesto correr nestas circunstâncias, começo a olhar para o relógio, e vejo que o objectivo já era impossível, mas tinha que terminar abaixo dos 40 minutos.

Respiro fundo, e tento aumentar a passada, tinha que ser.
Entro finalmente em asfalto, após cruzar uns metros por paralelos, e tento acelerar para o último retorno. O vento continuava forte, e impedia de progredir conforme queria, nem os prédios conseguiam acalmar aquela frente ventosa.
Chego ao retorno, e ao mesmo tempo, impulsiono o último esforço. O vento deixou de existir e estava novamente a sentir bem para poder soltar as pernas.
Última passagem pela rotunda da anémona, e subida até ao queimódromo onde ficava a meta.
Estava a esgotar as energias, só queria atravessar o pórtico. E fi-lo, ainda abaixo dos 40 minutos, como pretendia.

Já não recordava de uma prova tão desgastante como aquela, consegui controlar as coisas até meio da prova, mas os últimos 4/5 quilómetros, foram terríveis.
A organização esteve impecável, mesmo com umas pequenas ligeiras alterações do percurso, mas há coisas que não conseguem controlar, e todo aquele vento, aliado à minha quebra, só me fez massacrar mais. Independentemente disso, continuo a conseguir manter a marca abaixo dos 40 minutos, que era o pretendido.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Meia Maratona de Salamanca - Um plano com muito alto e baixo

Quantas vezes é necessário fazer a mesma coisa para se tornar tradição?
Uma, duas vezes é suficiente?
O certo é que estava previsto o regresso a Espanha, não a Vigo desta vez, mas a Salamanca.
Um local cheio de história, e vários pontos de interesse para visitar. Mesmo com a ida no dia anterior, foi impossível visitar tudo, e ver com mais calma. Consegui pelo menos ter uma pequena noção daquela cidade, e sabia que à partida no dia seguinte enquanto corria iria passar em vários locais, por todas aquelas pequenas ruelas que cruzavam com alguns dos vários edifícios históricos.
Era um local histórico, notava-se bem em todas as fachadas dos edifícios, ao manterem uma arquitectura idêntica como se tudo fizesse parte da mesma época.
O hotel ficava mesmo junto ao local da partida, e de todo o grande centro e atracção turística, o que facilitou bastante tanto para dar uma visita rápida, como para o levantamento dos kits.


É um facto que o sítio escolhido era óptimo para estas situações, contudo para descanso, já não foi o ideal, a noite é animada para aquelas bandas, e as muitas conversas na rua, gritarias dos grupos ouviram-se noite dentro.
Não dava para mais, o despertador tocava e já eu o aguardava alguns largos minutos, tinha que me levantar e começar a preparar.
Este hotel, acabou por ser uma surpresa desagradável, o seu interior não era o mais acolhedor, mas para uma noite não seria problema, mas na hora do pequeno almoço foi quando me desagradou por completo, com a falta de variedade, e somente um funcionário a correr para servir e limpar toda a sala, obrigando a muitos estar à espera que fosse possível haver alguma coisa para comer, ou mesmo para sentar. Valeu pelo menos pela cedência do quarto até depois da prova para um banho mais confortável.

Faltava cerca de 1.30h para a partida, tinha tempo de sobra para fazer as coisas com calma. Tardei a saída do hotel pela brisa matinal que ainda era fresca, e quando dali saísse já queria fazer um ligeiro aquecimento até à partida.
Aos poucos fui-me arrastando para a porta e ganhar coragem para apanhar um pouco de frio. Ao sol a coisa ainda melhorava, mas aquela zona ainda não tinha visto um raio de sol, devido aos prédios, que pelo menos protegiam do vento.
Lá teria que ser, e entre alguns arrepios vou correndo em direcção à partida, junto a um jardim, onde se ia vendo alguns portugueses aqui e ali, mas não me deixei ali estar muito tempo.
Queria tentar um bom aquecimento, e coloco-me mesmo em frente ao local de partida, numa longa recta a par de outros tantos.


A hora aproximava-se, e queria tentar um brilharete. O cenário ideal era 1h25m, tendo como objectivo principal baixar da 1h30m.
Procurava o local designado para esse tempo, e junto-me aos já vários alinhados para arrancar.
Sentia-me confiante, um pouco reticente, mas confiante enquanto aguardava pelo tiro de partida.
Ouvia-se ACDC, quando fazem a contagem decrescente e dávamos os primeiros passos de corrida. Tentava e pensava em não entrar em euforias, queria marcar um ritmo de 4.20 min/km, de início, e progredir gradualmente.
Como é habitual e normal nestas provas não se consegue, tinha ritmos alternados constantemente, não que fugissem muito aquilo que queria, mas que desregulava a sintonia que queria ter entre respiração e pernas.

Era tudo praticamente plano, e mantinha-me certo com um grupo que ia mais ou menos ao mesmo ritmo que eu. Deixava então o balão da 1h30m para trás, e só pensava que o queria ver ao longe. Iniciavam-se as primeiras descidas, mesmo que ligeiras e começava a aproveitar para recuperar um pouco o fôlego.
O sol já ia ocupando algumas estradas, e sentia-se que queimava, mas pelo menos esta fase, devido às ruelas que iríamos passar, ainda passaríamos por muitas zonas sombrias. As ruas estavam sempre com alguém, ou com alguma multidão para dar uma salva, os espanhóis sabem como fazer a festa.
Vinha com velocidade a mais do que a que tinha planeado, mas continuava a sentir-me fresco e com pernas para isso, comecei a idealizar outro plano e iria tentar um brilharete, se corresse bem, espectáculo, se não paciência.
Ao fim de cerca de 4/5 quilómetros lá encontrava o parceiro que me iria servir de “isco”, íamos algum tempo a ultrapassar um ao outro, por isso teria de ser ele. Acho que inevitavelmente ele também percebeu isso, e nesta fase coloco-me eu à frente e ele segue colado a mim.


A pequenas ruelas envolvidos pela zona histórica serviam para distrair a mente, a praça cheia de gente, completamente repleta foi uma boa sensação, mas agora iríamos sair do centro, e seguíamos para a periferia da cidade.
Uma coisa que apenas reparei no final da prova, e que não tinha dado a devida atenção, é que estávamos num autêntico planalto. A cerca de 800 metros de altitude o oxigénio não é o mesmo que 200 metros de altitude, e o corpo ressente isso, não no início, mas a meio ou mesmo no final.
A saída do centro, foi uma lavagem com centrifugação no máximo. Para além de estarmos em altitude, ficamos totalmente expostos ao sol, e ao forte vento. Por momentos, parecia que estava a chegar à praia da Barra, mas não. Ali não havia mar, apenas um rio que já havíamos deixado para trás.

Surgia uma subida não muito inclinada, mas longa, quase 2 quilómetros de extensão, totalmente a céu aberto com exposição ao sol, e uma forte ventania em sentido oposto.
Comecei a pensar seriamente o que iria ser o resto da prova com aquelas condições, do confortável, virei para o desconfortável num abrir e fechar de olhos, só queria chegar ao topo, e iniciar a descida.
Aproveitava para me encostar a alguém que fosse melhor do que eu, o que não era difícil, para ver se o vento era menos forte, mas não conseguia.
Atingia o topo e surgia uma pequena descida que me levava aos 10 KM, e pensava que pronto, agora faltava outro tanto. Do outro lado da estrada ia aparecendo os primeiros atletas, de volta do retorno pouco ali mais à frente.


Ali pelo menos o vento já não batia de frente, e parecia ter atenuado um pouco, mas para não teria que ser fácil, tinha que surgir uma subida bem inclinada e curta. Tentava a todo custo manter o mesmo ritmo de princípio a fim, mas mesmo a terminar tive que ceder, não dava para mais.
Enchi os pulmões de ar, e logo de seguida expulso o ar devagar, repito 3 vezes, e volto à carga.
O piso virava plano com ligeiras descidas, e aí conseguia recuperar, abusando logo de início para recuperar alguns segundos que fossem. Retorno feito, e tinha a distracção toda do meu lado esquerdo, tentando encontrar caras conhecidas. Não seria por muito tempo, a descida era acentuada, e eu continuava a abusar, pelo menos de caixa já tinha recuperado, agora faltava saber como estavam as pernas.

Procurava novamente a minha “lebre”, mas via que ficara para trás. Fazia novamente uma tentativa em encontrar alguém, mas não estava a conseguir, ou depressa demais, ou estava a abrandar. Teria que ser eu e o relógio, a lutar contra o sol que cada vez mais me fazia confusão.
Era o regresso a Salamanca onde podia finalmente distrair-me com mais apoio, ou pensava eu que sim. A travessia da ponte pedonal, pelo menos estava cheia de apoiantes, o vento também fez-se sentir, mas foi sol de pouca dura, devido aos edifícios. Precisava de beber água, o sol vinha a fazer-me forçar nestes últimos 2/3 quilómetros, e sentia a boca seca. Água pela garganta abaixo, e pelas pernas, soube-me pela vida, parecia ter rejuvenescido.
A passagem junto ao rio, alegrava-me, mas o sol estava directamente exposto sobre nós, era uma zona pedonal, e caminho um pouco mais estreito, por vezes tinha que abrandar para arranjar maneira de ultrapassar alguém, não que me incomodasse, aproveitava para descansar um pouco.

Restavam pouco mais de 3 quilómetros para o final, e a coisa parecia querer complicar-se.
Junto ao rio, apesar de exposto ao sol, ainda surgia alguma pequena brisa, ou sombra, o que terminou assim que voltamos a pisar o asfalto, novamente a céu aberto.
Valeu pela descida inicial para conseguir colocar algum ritmo mais rápido, mas que finalizava instantaneamente mal contornássemos a rotunda ali no fundo.
Seguia-se a subida da prova, com já cerca de 19 quilómetros nas pernas, uma subida que nos triturava tanto por fora, como por dentro. Cerrava os dentes, como se a minha vida dependesse disso, tentava manter o ritmo, mas não estava a dar, estava cheio de calor, nem os aplausos me valiam ali.
Ao olhar por cima do ombro, vejo o balão da 1h30m a alcançar-me, e chega mesmo a ultrapassar.


Recordo de o passar no início cheio de gente, mas agora seguia sozinho, a puxar pela malta para o último quilómetro. Já não queria saber de tempos, já começava a pensar em caminhar, as pernas estavam pesadas, estava a atingir o meu limite naquele momento.
20 quilómetros, e era o fim, aquela tortura terminava, provavelmente a minha cara naquele momento seria de alguém que levou semelhante porrada e estava a acabar de se levantar sem saber o que se tinha passado.
Agora era descer, e plano, contornar o jardim e atravessar a meta.
O balão continuava à minha frente, a um par de metros a chamar por nós, e eu atendi à chamada, mas desrespeitei-o, acabei por o ultrapassar. Dei o que tinha e o que não tinha para o ultrapassar, e depois foi só manter-me à frente para terminar abaixo do meu objectivo.
Contornava o jardim, e só queria atravessar aquela meta. 1h29m depois estava feito.

Foi uma luta até ao final, contra aquilo que não esperava que acontecesse. Sempre imaginei uma prova minimamente plana, mas aquelas subidas trocaram-me as voltas.
Os espanhóis sabem o que fazem, e em termos de organização estão totalmente de parabéns, para além disso, eles sabem viver as provas, e dar-nos a entender que estão ali para nós, pela segunda vez que corro em Espanha, e sinto vontade de lá voltar pelo forte apoio que dão.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Vouga Trail - Que rica molha


Eram sete horas da manhã quando o despertador toca. Arrepio-me mal saio da cama, para me preparar para mais uma prova por trilhos. Não demoro muito e espreito o tempo, para confirmar o que já esperava. Estava escuro, frio e chovia com perspetiva para se manter durante todo o dia. O que dava para me manter debaixo dos lençóis.
Só mesmo o meu lado mais aventureiro, me arrastava para o ritual matinal pré-prova, e mesmo esse não impediu um pequeno atraso para encontrar com os restantes elementos da equipa.
A viagem era curta e rápida, afinal Sever do Vouga é ali mesmo ao lado. A enxurrada que São Pedro reservou para aquele dia ainda não tinha parado e a juntar à chuva, o frio fazia companhia.


Era uma prova linear, e os autocarros eram o contraste do tempo lá fora, quentinho e confortável. Mas com a chegada à aldeia de Silva Escura, e colocando o primeiro pé fora do autocarro dava-se pela diferença. Aguardávamos pela hora da partida dentro de uma pequena casa que ali havia, e pelas 09.30h já ao relento, debaixo da chuva deu-se o tiro de partida.

Arranquei um pouco mais na frente do que o normal, e a estrada até aos primeiros trilhos eram bem rolantes, e numa forma de aquecer coloco-me a correr como um desalmado. Ao mesmo tempo que aquecia, ia dispersando da maior confusão.
Com o fim do asfalto, entravamos naquilo que já se previa, lama. Um piso muito incerto em single track com raízes, lama e desvios constantes.

Tentava minimizar o contacto com a lama sempre que conseguia, mas era difícil, estava espalhada por todo o lado. Entravamos no parque de Cabreia, e nem as escadas em pedra facilitavam, e ao fim de algumas simulações de queda, eis que o pé não encontrou o melhor apoio e valeu-me o apoio no corrimão em madeira. Não havia sido aparatosa, daí ter-me levantado imediatamente e seguido a correr, mas deu para o susto.
Atravessávamos o rio e o panorama era o mesmo, num pequeno caminho com pequenos troncos saídos da terra solta e inclinada em direcção ao rio. Por diversas vezes me perguntava quando ia dar um mergulho, devido à imprevisibilidade do terreno.
 
Cascata Cabreia. Créditos: Organização
Sair dali, foi um alivio, entrava em estradões em que a única preocupação que tinha de ter era a atravessar os largos charcos de água castanha sem saber a profundidade. Mas visto bem as coisas seria o menor dos problemas.
O Vouga Trail, foi um pouco diferente, pelo menos para mim, de tudo o que fiz até agora. De uma forma geral, as provas iniciam-se a subir e terminam a descer, esta seria ao contrário. Um início bastante rolante com várias descidas à mistura, o desnível todo no centro da prova, e uma subida até ao final. A chuva, frio e vento misturado fez com que todo o percurso parecesse estar preenchido de ratoeiras, à espera de um deslize para uma magnifica queda.

Valia mesmo os estradões, que tinham um piso mais consistente e menos escorregadio.
A primeira subida era um desses exemplos, as pedras substituíam a lama que já não era tão visível, mas nem assim facilitava aqueles cerca de 270 metros em 1 quilómetro.
O pouco que conseguia correr era quando a inclinação diminuía, mas honestamente estava mais interessado em ver onde colocava o pé. O impermeável foi fulcral, e um verdadeiro teste para ver se realmente estava aprovado. Não houve momento algum em que sentisse frio, nem que a chuva perfurasse aquele casaco. E quando caminhava era nele que deixei a minha confiança para não arrefecer. Ainda consegui retirar uma ou duas vezes o carapuço da cabeça assim que surgisse uma aberta, mas a chuva teimava em voltar logo de seguida.

Nos metros finais já consegui voltar a correr, e mesmo no alto, com o descampado daquele cume o vento mostra que também veio, empurrando a chuva para a cara. Começo a ver o abastecimento ao longe, e sigo a correr. Não parei muito tempo, apenas alimento um pouco e sigo viagem.
Nesta última corrida até ao abastecimento senti as pernas um pouco presas, talvez pela recente subida. Volto a tentar correr no pouco plano que nos leva até à grande descida, e já me sinto mais solto, até começo a abusar, mas a bruta descida que me aparece, obriga a abrandar.

Ia precavido, e continuava com receio de colocar mal o pé onde quer que fosse. Ao mesmo tempo começo a perceber que naquele dia não estava com pernas para descer, e o estado em que estava o terreno devido à chuva desmotivava mais ainda. Tinha que controlar aquilo de que maneira fosse. As descidas estavam a ser massacrantes, mas os single tracks que repentinamente se colocavam eram técnicos devido aos vários riachos de água, e pedra solta e molhada.
Aguardava um bom piso para poder correr, e assim o fiz assim que volto a ter caminho para isso. Eram variações de ritmos constantes, entre subidas, descidas e caminhos mais ou menos técnicos. Aproximava-se a próxima subida, provavelmente dos percursos menos interessantes da prova, valia a companhia e a conversa que ia tendo num grupo de 5 atletas que ali íamos juntos.

Uma valente molha
 Foram poucos metros, e um pequeno momento de distracção que fez com que nos enganássemos no caminho, mas confesso que havia partes que poderiam estar melhor reforçadas com fitas. Reencontramos as fitas, e num pequeno desvio por entre mais lama voltamos ao caminho original. Devido ao piso muito escorregadio, perco um pouco o contacto com o grupo. A travessia numa pequena aldeia ajudou a que me aproximasse deles, foi uma passagem longa em estrada até chegar de novo a mais corta fogos.
Mais uma longa descida, em que acabo por ficar para trás, e uma vez mais por não conseguir estar à vontade a descer, fosse de que maneira fosse. A Ecopista do Vouga, foi como um refresh às pernas, arranquei um pouco ofegante e pernas pesadas, e consigo controlar toda a situação e correr minimamente.

Chegávamos ao segundo abastecimento dentro dum pavilhão, e foi como se me desse o clique de que teria que gerir bem estes últimos quilómetros.
As pernas estavam novamente pesadas, os músculos um pouco duros, só podia ser consequência do exagero de treinos nessa semana.
Demorei um pouco mais no abastecimento, volto para a ecopista, e mais asfalto. A travessia do rio Vouga diferenciava o piso, fora isso, atrevo-me a dizer que andamos cerca de 2 quilómetros em estrada. As estreitas ruelas daquela aldeia de Pessegueiro do Vouga era a única coisa que tornava aquela fase mais divertida. O seguimento pela estrada era de tal maneira continuo que uma vez mais engano-me no percurso, volto para trás, e volto a encontrar as fitas, um pouco mais discretas por meio de uns campos para variar a monotonia.

Saído daquela aldeia, voltamos à estrada nacional, para iniciar a última subida, e por pouco pensei que fossemos subir até ao final sobre o asfalto.
Talvez fosse melhor, talvez fosse pior, não sei, mas foi ali que comecei a deitar a toalha ao chão.
A entrada na última subida por trilhos era uma mini trituradora de pernas.
A subida era tudo menos consistente para sequer pousar o pé, estava completamente desfeito devido à muita pedra, à terra completamente recortada pela água que a percorria, e cheia de pequenos ramos das árvores que por força do vento foram tombando.
Chegar ao topo foi como uma vitória, estava a começar a sentir massacrado. As descidas que se foram interpondo finalmente eram mais acessíveis, e foram como um alívio para as coxas.

Entrava em mais um single track, e parecia que voltava tudo atrás, a lama voltara a aparecer, juntava-se as encostas que exigiam usar todos os membros para subir, e as coxas e gémeos a gritar por clemência.
Insistia que iria terminar aquilo, e que a toalha não ia ao chão por nada. Mais alguns estradões e começo a aguardar a meta. Tento estar atento a ver se ouço algum barulho da meta, mas em vão. Por vezes ainda punha a hipótese de me ter enganado em alguma parte e estar no percurso dos 42KM.
Entrava num ecossistema diferente, tudo mais verde e sem a confusão habitual do mato. Foi dos trilhos que melhor me lembro por duas razões. Pela diferença de tudo aquilo que fizemos, e pelo empeno que levei. Eram imensas as encostas que teríamos que subir, mas a lama, e já a falta de apoios para pousar o pé era impossível subir aquilo sem escorregar. Numa das situações aconteceu mesmo, estar a subir em paralelo a outro atleta, e ele continuar e eu deslizar para trás por não encontrar apoio. As raízes que se escondiam por baixo da lama foram a solução, apoiando as sapatilhas, e fazendo o impulso com as pernas para subir. As minhas coxas rebentaram por completo ali, estava completamente desfeito. Aguardei uns segundos, e caminhei um pouco. Só queria sair dali.
 
A aguardada meta
Atravesso por entre umas casas, e chego a Sever do Vouga. Finalmente conhecia onde estava e dali à meta era um instante. Rejuvenesci naquele instante, e volto a correr. Já não queria saber das coxas, nem dos gémeos, de nada. Só queria atravessar a meta e terminar.
Finalizei um sufoco total para as pernas, um pouco mais tarde do que estava à espera.
Sei que estava minimamente preparado para fazer a distância sem problemas, mas o facto de estar com excesso de carga condicionou bastante ao final de alguns quilómetros. O tempo sem dúvida não ajudou, e a muita lama exigiu mais do que o que estava à espera.
É uma primeira edição, que fica um pouco a desejar, talvez o tempo que esteve contribua para esta decisão, mas revendo bem todo o percurso, é à base de estradões e mais estradões, que deve ter sido das palavras que mais usei durante esta crónica. Os single tracks eram impecáveis, mas a chuva tornou-os de tal maneira agrestes que complicou tudo. Para além disto, achei que houve muita estrada. Provavelmente com um clima diferente, e alguns ajustes durante o percurso, a coisa funcione bem melhor.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Ultra Trail Medieval - A primeira


Já lá vão 3 edições desta prova, e pela terceira vez volto às terras de Santa Maria da Feira. Uma prova que ficou muito a desejar na sua primeira edição, mas bem melhor na segunda edição. Analisando bem a coisa, foi sempre a prova em que inicio cada ano, e que sempre aumentei a distância.
Já há muito que queria tentar a minha sorte numa ultra, e os 44 quilómetros, foram como se tivesse a chamar por mim. Digamos que é uma pequena ultra.
Conseguimos juntar um batalhão mais ou menos grande, divididos pelas várias distâncias (15KM, 30KM e 44KM).
Uma coisa que aprecio nesta prova é o percurso linear, outra é o que diferencia das provas que fiz até hoje, a animação durante a prova, com personagens vestidos à época medieval.

Créditos na foto
A manhã era fria, fazia tremer, e bater o dente. O facto de estarmos numa praia fluvial onde tudo em volta ficava branco devido às temperaturas baixas já era motivo suficiente para meter arrepios. A única maneira de aquecer era dentro de um pavilhão ali mesmo ao lado, onde nos mantínhamos até à hora de partida. Hora essa que chegou rapidamente, e onde nos alinhavamos de frente para o speaker Joca, que nos ia animando até ao arranque.

Gélida manhã. Créditos na foto
Era hora de partir, tinha 44 quilómetros para percorrer, mas tinha tempo. Saio da parte de trás do pelotão, e sigo sem grandes pressas, junto com a Márcia. Íamos na conversa e rindo enquanto dávamos a pequena volta à praia fluvial até finalmente entrar em piso mole.
Era a entrada em trilhos, num estradão rodeado de árvores e algumas silvas. Seguíamos assim durante algum tempo, numa tentativa de nos afastar o mais possível do longo emaranhado caminho com tanta gente a o percorrer.
Foi uma das situações que mais confusão me causou por parte da organização. Sei que o fizeram a pensar numa recepção dos atletas mais gratificante, mas esqueceram-se das centenas de atletas que se iam cruzar nos inúmeros single tracks. Recordava-me das inúmeras interrupções no ano anterior quando participei nos 29 KM, se juntarmos duas distâncias que iriam fazer o mesmo percurso até aos 30 KM, seguindo posteriormente para os 14 finais, seria uma verdadeira peregrinação.

Primeiro contacto com a terra. Créditos Organização
Nada a fazer, a primeira paragem não demorou muito, com a travessia de um rio, em que um simples salto bastava para poder avançar, estava um caos. De forma calma fui tentando avançar pelas laterais e prosseguir para não ficar ali retido vários minutos. As subidas eram a minha escapatória para ultrapassar mais gente. Era aqui que inúmeros atletas começavam a caminhar, e como estava com pernas e a sentir-me bem fisicamente, avançava sem problemas. As descidas também eram bastante rolantes, nada de muito técnico, com algumas pedras, mas que com alguma atenção se poderia abusar. Infelizmente acidentes acontecem, e ali já deitada na encosta do caminho vi uma rapariga maltratada, devido a uma queda um pouco aparatosa. Felizmente já havia pessoal a cuidar dela, não parei para não causar mais confusão.

Mais umas pequenas subidas e não descartava a corrida, só assim conseguia sair da confusão e evitar grandes confusões nos single tracks. Não tardaram a aparecer, sempre rodeado de eucaliptos, lá íamos serpenteando, naquilo que me parecia algo diferente da edição do ano passado. Apanhava o Fábio, que pensava já seguir bastante à frente, mas não, queria ir nas calmas e desfrutar, dizia-me ele. Seguia mesmo atrás dele, enquanto a Márcia, nos perseguia a poucos metros de distância.
Aguardava pela subida mais complicada da prova até à capela de São Marcos. Uma subida mais inclinada e com um pouco mais de técnica do que até ali fizemos. Ali no topo estava o primeiro abastecimento, que, diga-se de passagem, era bastante requintado e recheado.
O frio já era passado, aquela encosta era mais exposta ao sol e o curto tempo que ali estive dava para levar com alguns raios de sol.

Também se caminha. Créditos na foto
Chega de malandragem, dizia eu. Voltávamos a correr, agora também com o Roni.
Aos poucos fomos apanhando alguns elementos da equipa e íamos seguindo juntos conforme podíamos. Dali apenas eu, Fábio e Márcia, seguiríamos para os 44KM, os restantes para os 30, no entanto o percurso era o mesmo, e íamos dando boleia uns aos outros.
Transitávamos de estradões para single tracks num abrir e fechar de olhos, o percurso agora era o mesmo do ano passado, e o facto de me ir relembrando do que iríamos fazer ia contribuindo para abusar um pouco. Aos poucos eu e o Fábio fomos avançando, e seguimos, ficando a Márcia com o Roni um pouco mais atrás. As subidas ainda eram feitas a correr, e já estávamos dispersos da grande confusão de atletas, não havia motivo para continuar a insistir em correr, apenas o facto de nos sentirmos bem, e estar tudo a correr na perfeição.
Comentava que deveríamos começar a nossa gestão, as subidas não poderiam ser feitas daquela maneira, e aos poucos fomos atendendo a isso, até finalmente optarmos pela ideia mais lógica de abrandar um pouco para gerir bem até ao final. Começamos a fazê-lo a partir dos 15 quilómetros sensivelmente, quando grande parte do desnível já estava feito. O que estava feito, estava feito, não havia volta a dar.

Já não nos esforçávamos muito a subir, mas no plano não arredávamos pé, e fazíamos por vezes exageradamente, mas tanto um como o outro sabíamos que só daquela forma é que conseguíamos ter gozo.
A proximidade do rio trazia mais diversidade e alguma técnica ao terreno, e com ele também o frio. Já algum tempo que não sentia frio, mas as temperaturas teriam baixado alguns graus, e dentro daquele mato mais cerrado não avistávamos o sol, nem entrava calor. Por momentos tive alguma dificuldade em aquecer. Tudo mudava quando reconheço o parque de merendas.
Ali sabia que ia conseguir correr e aquecia, já não ia ter problemas. As paisagens em volta são fantásticas, do género de um bosque, com o piso coberto de folhas das árvores e algumas raízes saídas do chão, primeiro num pequeno caminho feito para se passear, e depois num pequeno carreiro junto ao rio. Ali não se parava, ali desfrutava-se de um amplo parque natural.
Apenas uma pequena pausa no abastecimento, último em comum com os 30 quilómetros. A simpatia dos voluntários mantinha-se fiel ao ano passado, sempre prontos a ajudar.

Recuperado alguns mantimentos para seguir viagem, retomamos em direcção ao local da meta. Estávamos cada vez mais próximos do centro da feira reconhecia bem aquele caminho, a subida para o castelo era logo ali.
Colocamo-nos imediatamente a passo para conseguir gerir o que dali para a frente ainda viria. Segundo o gráfico, os últimos 14 quilómetros seriam bastante rolantes, só não sabemos se são técnicos, e se teremos pernas para o fazer, por isso caminhar seria a melhor prevenção. Pelo menos até ao castelo. A descida do castelo, essa já é outra história.
Adorava aquela descida, e na edição anterior não a consegui correr devido a um aglomerado enorme do pessoal da caminhada e dos 15 KM. Hoje não poderia ser assim, teria que a fazer a correr. Saí do castelo a correr como se estivesse a sair da escola. Ali estava ela, tinha algumas pessoas, não tantas como já havia apanhado, não olhei a mazelas nem a gestão, apenas queria corrê-la. Curva contracurva, raízes aqui, algumas pedras enterradas e estávamos mesmo a chegar à meta.

Vamos a ela! Créditos Organização.
Já ouvíamos o speaker e o ambiente de festa. Havia muita gente das restantes distâncias que terminaram e que ainda ali estavam a apoiar, e aguardar muitos que ainda não tinham terminado.
No final da descida já se via alguns aplausos, e na zona de meta era um festival. Ainda consegui ver os meus pais, mas não estava do lado deles, teria que fazer um pequeno desvio para mais 14 quilómetros. No ano passado terminei ali, daqui para a frente seria o desconhecimento e a capacidade de ser resiliente.
Aproveito o abastecimento para me recompor, e demoro um pouco mais. Estava bem, e estava confiante, brincávamos com a voluntária que a prova iria começar agora, por não conhecermos o restante percurso.

Primeira passagem pela meta. Créditos na foto
Afastávamo-nos da zona da meta, enquanto dizíamos um até já, essa fica para mais daqui a um bocado.
Iniciamos em campo aberto, onde várias vezes caminhei aquando da visita à feira medieval, o som da música e de toda aquela calorosa recepção ficava para trás, e à medida que entravamos no meio das árvores o som ia ficando para trás. Entramos logo em single tracks, piso muito enlameado. A juntar a isto tínhamos um sobe e desce constante. Tinha as pernas frescas e boas para correr, só não sabia de que forma iria conseguir gerir aquela montanha russa. Se caminhar nas subidas vou andar num para e arranca desgraçado, se correr pode correr bem, como correr mal.
Acabei por não pensar muito nisso, e seguir o caminho como me desse mais jeito, e conforme me sentia.

Ainda mantinha a corrida, abrandava um pouco nas subidas, quando se metia plano era mais técnico. Tinha algumas semelhanças com vários caminhos que já havíamos feito, só que desta vez tínhamos mais quilómetros em cima das pernas.
O ritmo era tão bom, que íamos ultrapassando vários atletas, que começavam a mostrar dificuldades. Aos poucos isolamo-nos, sem ninguém à vista à nossa frente como para trás, apenas víamos gente dos abastecimentos e os figurantes vestidos à época nos saudavam e animavam.

Eram 36 quilómetros, algumas horas depois de termos saído daquela praia fluvial gélida, e as pernas começaram a queixar-se. Recordo-me particularmente, porque ainda tinha alguma sanidade mental para antever o que me esperava. As pernas estavam a começar a ficar duras e pesadas, já não conseguia retomar a corrida como havia feito por diversas vezes.
A energia que reavia sempre que saía de um abastecimento já não estava a dar, receava cãibras, enquanto reconhecia e comentava com o Fábio que não estava preparado para aquela ultra. Os treinos não tinham sido suficientes, nada que já não soubesse, apenas não quis pensar muito nisso. Riamo-nos o que era bom sinal naquele momento. Enquanto pude ainda corria, mais a descer do que em terreno plano, e as subidas, essas já não davam. Tentava, mas não queria rebentar por completo, e aos 38 quilómetros decidi abrandar por completo, e aguardar pelo abastecimento. Estava a poucos metros de lá chegar, quando sinto o estômago algo frágil, e comecei a antever o que poderia fazer.


Créditos Organização

Enchi os flasks, que dariam até à meta, e peguei em algumas coisas mais suaves do abastecimento enquanto vou cumprimentando mais um grupo de voluntários bastante prestáveis. Revejo o gráfico através do dorsal e vejo que teremos uma última subida, nada de muito grave em condições normais, mas como estavam as pernas não daria.
A saída do abastecimento também não facilitou, com alguns saltos, descidas mais técnicas, estava a triturar as pernas. Entravamos em trilhos que só apetecia rolar, e tentava, mas não estava a dar, não enquanto as pernas estiverem pesadas, e o estômago não deixar entrar comida razoavelmente. Já me encontrava a meio da subida, quando começo a sentir-me mais confortável para ingerir alguma coisa, e com algumas coisas que levo na mochila vou tentando a minha sorte aos poucos. Aguardo uns minutos e começo a ter uns ligeiros sintomas de melhoria, enquanto retomo a corrida e explico ao Fábio que já estou a sentir-me melhor, se tudo correr bem já vamos correr. Mais uns risos, e cerca de 20 metros depois paro, estava mesmo a terminar aquele último cume, mas foi tudo falso alarme.

As descidas eram o único refúgio às pernas já perras, sinto-as mais soltas e deixo ir. Abrando quando me tento rever a subir por uma escadaria improvisada em paletes, dali não poderia sair coisa boa. A boa disposição ainda reinava na cabeça, e na brincadeira com os voluntários que se ofereciam para ajudar a subir, começo a correr. Fico algo espantado como consegui fazer sem problemas, tento uma vez mais, e desta vez engatou. Estava novamente com pernas mais ou menos soltas, mas passiveis de rolar.

Teria que subir o castelo novamente, algo mais lento que na primeira passagem, mas já só pensava que ia fazer pela segunda vez a descida até à meta. Não penso duas vezes e desligo-me novamente do massacre das pernas enquanto tento apanhar o Fábio que segue poucos metros à minha frente. Começamos a ver o piso verde ao fundo, o que significa que a ultra estava terminada. Mais uns passos de corrida, e era só atravessar a meta.

Outra vez? Créditos na foto
Aí estava, 5:24h depois terminava a minha primeira ultra maratona.
Uma ultra, pequena em distância, mas grande em muitas outras coisas. Começaram mal há dois anos atrás, reconheceram e melhoraram, o que não é para todos. Existe ainda muita coisa a ser melhorada, mas a base está lá, e têm conhecimentos para isso, basta quererem.

Um pouco de esforço, mas está lá. Créditos Organização
Finalmente ultra-maratonista (pequeno ainda).


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

São Silvestre de Ovar - Uma delicia


Desde a minha primeira corrida, não há muitos anos, que recordo bem de que forma atravessei pela primeira vez a meta após 10 quilómetros.
Na altura, corria há poucos meses, e os ritmos, … bem esses eram devagar, devagarinho. Como tudo na vida, tudo tem um início. E foi aí que se iniciou este bichinho pela corrida.
Aos poucos, e naturalmente fui evoluindo, a coisa foi melhorando e os minutos a baixar, até chegar a um patamar em que os tempos finais rondavam os 41/42 minutos. Foi aí que me desafiei a conseguir correr uma prova abaixo dos 40 minutos. Sabia que naquela altura ia exigir muito de mim, sendo uma fase inicial. Mas não tinha como uma data limite para o fazer, iria esforçar-me para tal, mas sem pressas.
Contratempos, e a participação em cada vez mais provas longas, e de trail, colocaram este objectivo um pouco de parte. Sabia que eventualmente iria voltar às distâncias curtas, e que aí iria tentar novamente a proeza.

As “São Silvestres” são uma delícia para se conseguir esse feito. O convívio, e a forte presença de apoiantes pelas ruas ajudam, e era a minha oportunidade de terminar o ano em beleza.
Escolhi a de Ovar, na fresca noite de Dezembro para tentar a minha sorte.
Pelo que havia feito nos últimos treinos estava confiante para ser finalmente um “sub 40”, mas naquela noite de Sábado não me sentia capaz de o fazer, não sabia o quê, nem o porquê, mas estava reticente, e não quis elevar a fasquia. Optei por apontar para o tempo final de 40 minutos. Já seria bom, pelo menos retirava 1 minuto ao meu recorde pessoal.

Lá no fundo tinha uma pequena esperança que tudo ia correr bem, e que ia conseguir um brilharete, e segui à risca a estratégia que já tinha delineado. Aquecimento q.b., e tentar posicionar-me o mais à frente na linha de partida.
O aquecimento foi mais que bom, estava quente o suficiente para poder arrancar. E a faltar ainda 10/15 minutos para o arranque, deparo-me com uma quantidade enorme de atletas já inseridos bem atrás do pórtico. Tento “furar” o máximo que consigo, até não conseguir mais, e vejo a coisa a andar para trás.
Aguardo pela contagem enquanto arrefeço e vou trocando palavras com pessoal.
Aproximava-se a hora, e finalmente podemos chegar à frente após entrada do pessoal de elite. Estava relativamente mais perto do pórtico, mas a confusão era tanta, que parecíamos sardinhas enlatadas.

Foto Organização
À hora arrancamos, e o que suspeitava confirmou-se. Grande parte dos atletas que ali estavam à minha frente são daquele tipo de atletas que mais me enerva em provas. Colocam-se na frente apenas para atrasar quem quer tentar alguma coisa. Não que fosse o meu caso, mas tentava retirar pelo menos um minuto ao meu melhor tempo. Enfim.
Queria tentar manter um ritmo entre os 4.10, 4 min/KM durante o primeiro quilómetro. E só com alguma destreza o consegui. Eram ritmos inconstantes, um para e arranca infernal, e muita confusão. Tentava fugir ao máximo daquela confusão, mas com o passar dos primeiros 1000 metros, o relógio apontava um ritmo médio de 4 min/KM.
Nem tudo era mau, pensei, agora seria manter e consequentemente aumentar.

Uma das funções que gosto de utilizar no meu relógio, é a previsão de tempo final de uma determinada distância consoante o ritmo que vou. Foi o meu apoio desde início.
Logo a princípio apontava para uns 42 minutos, o que achei normal, dado a velocidade que até ali mantive. Não estava preocupado, pois estava a sentir-me solto, e sem cansaço ou ofegante devido aos ritmos inconstantes.
Algumas curvas e contracurvas até entrar numa recta onde a estrada era mais larga, e se tomava sentido à dimensão de quantidade de atletas que ali estavam. O ritmo havia melhorado, e já estava abaixo dos 4 minutos, o que era fantástico, mas achei prematuro naquela fase.
Aproveitava a “boleia” de alguns que me ultrapassavam para seguir atrás deles, até finalmente estar mais disperso da multidão.
Já levava cerca de 3 quilómetros quando já vinha a completar um pequeno grupo de 4 elementos. Eramos 4 atletas, sendo uma feminina, todos eles pareciam estar a fazer de lebre, e ela a tentar a sorte dela. Após me sentir bem naquele ritmo mais forte que adoptei deles, fui avançando deixando para trás um dos atletas, e colocando-se ao meu lado um outro, a rapariga percebeu a ideia, e colocou-se mesmo logo atrás de nós.
Era a descer e aí todos os santos ajudam, tanto consegui manter a velocidade, como fui aumentando e acabei por me afastar deles, deixando-os para trás.
Era um percurso perfeito, sem nos apercebermos bem das subidas, por ter um declive tão reduzido, e por conseguirmos “deslizar” nas descidas.

Era altura de passagem pela zona da partida (e meta) novamente, e aos poucos que nos vamos aproximando do centro de Ovar, o apoio vai aumentando, cruzando com algumas pessoas aqui e ali.
Olhava para o relógio e já apontava para uns 39 minutos de tempo final, com tendência a baixar mais. Estava a achar aquilo estranho, mas estava com pernas, caixa, e força para mais. Pensei que tivesse abusado na primeira parte, e iria sofrer dali para a frente, mas o meu corpo ia-me dizendo o contrário.
Estava com 5 quilómetros, e ali estava o abastecimento de água que evito sempre deixar para trás. Desta vez, ia ser diferente, via os voluntários a estender o braço do meu lado esquerdo, e alguns atletas na direcção deles. Afasto-me e mantenho o ritmo, dali para a frente seria eu e o meu guia, vulgarmente conhecido como relógio.

Havia partes que coincidiam com a meia maratona de Ovar, que já conhecia, e sabia se podia abusar, e nestes últimos 5 quilómetros, havia alguns desses segmentos.
Contudo eram os quilómetros mais mórbidos da prova. Tanto pelas ruas vazias, como pela escuridão tornando o percurso perigoso. Foram vários os passos que dei sem perceber onde colocava o pé, tentava sempre seguir quem ia à frente.
Consultava o relógio novamente e o tempo final, apontava para uns 38 minutos e tal, pensei para comigo que isto iria ser melhor que um brilharete, alguma coisa não estava bem, mas o que era certo é que os ritmos estavam sempre certos desde o arranque, e tudo batia certo.
Sentia que ia ser aquele dia, sentia que iria ser ali que ia finalmente ser um sub 40.

Já algum tempo que havia sido ultrapassado por um conterrâneo, mas sempre se manteve a uns 20/30 metros à minha frente. Até ao quilómetro 7, o meu objectivo foi evitar que ele fugisse de vista, agora era tentar alcança-lo, para evitar perda de ritmo. Aumento o ritmo, e vejo a placa do quilometro 8, ultrapasso numa ligeira subida, e entro em terreno plano.
Era altura de puxar pelas pernas, não que não o tivesse feito até ali, mas dali para a frente seria um contrarrelógio.
O relógio continuava a apontar para os 38 minutos e alguns segundos, queria tentar tirar o máximo possível, e apertei de maneira a aguentar aqueles 2 últimos quilómetros, com o mesmo ritmo de princípio a fim.

As palmas já se iam ouvindo, os festejos e o speaker. Sentia-me concretizado, a multidão em redor aplaudia, não para mim directamente, mas para os muitos que ali passavam, mas fui egoísta, corria como se aqueles aplausos fossem só para mim. Aproveitava também as descidas para acelerar mais um pouco. Era os últimos 100 metros, e seria a subir até à meta. Subida quase sem declive de início, mais acentuada no final, mas sem dar para esforçar os músculos. Aí estava, o tão esperado sub 40. Tempo líquido de 37:55.

Infelizmente não posso afirmar ser o meu tempo final dos 10 quilómetros, por a prova ter uns 300 metros a menos. Fiquei um pouco triste, mas sabia que aqueles 300 metros iriam ser feitos certamente sem problema algum, colocando o meu tempo nos 38 minutos e alguns segundos.

A noite fria ajudou a que não quebrasse, e a corrente humana que havia a apoiar junto à meta foram uma grande ajuda. Apenas um reparo para validarem a certeza da distância final, nas zonas escuras, e no abastecimento, que apesar de não o usar vi que tinha apenas uma pequena bancada, que não daria para dispersar a maioria do pessoal quando começassem a chegar aos grupos.
São pequenos pormenores que podem facilmente serem rectificados, e ter uma prova de excelência.

O que ficou mesmo na memória, foi um final de ano com objectivo realizado. E um belo pão de ló de Ovar, que é uma delícia.

Tirada do Google.